12/02/2026 10h14
Foto: Divulgação
“Um sonho que vira realidade”. Foi assim que Angela Pinhati, diretora de Sustentabilidade da Natura, definiu a inauguração da unidade de abastecimento de biometano no complexo industrial Cajamar (SP), o maior em operação da América Latina.
A iniciativa inaugurada na segunda-feira, 9, marca mais um passo concreto da companhia em sua jornada de transição climática, rumo à meta de se tornar um negócio 100% regenerativo até 2050 e zerar as emissões de suas operações até 2030.
Em parceria com a Ultragaz, a Natura passa a utilizar biometano como matriz energética para 45% dos processos industriais da fábrica em Cajamar e para 100% da frota logística que circula na Grande São Paulo.
O projeto é pioneiro ao integrar, pela primeira vez no Brasil, duas frentes operacionais simultâneas: produção industrial e logística.
O biometano utilizado pela Natura vem do aterro sanitário de Caieiras, o maior da América Latina, que processa 3 mil toneladas de resíduos por dia . O combustível é produzido pela Ultragaz a partir da captação e purificação do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos depositados no local e transformando o lixo em fonte de energia limpa.
Parte dos resíduos destinados pela própria Natura ao aterro retorna à empresa, materializando um modelo de economia circular e substituindo os fósseis poluentes das operações.
Para Guilherme Simão Darezzo, vice-presidente de Operações da Ultragaz, a parceria demonstra que a solução é madura, confiável e capaz de operar em escala.
"Ao integrar fábrica e frota, é possível descarbonizar processos complexos, aumentar a eficiência operacional e, ao mesmo tempo, fortalecer a competitividade do negócio."
A realidade atual é que dos 2,4 milhões de caminhões que circulam no Brasil, apenas 2 mil (menos de 0,1%) rodam a biogás. O VP destacou também que a Ultragaz garante que a molécula seja 100% rastreável e renovável.
Atualmente, o escopo 3 (carbono gerado "fora dos muros do negócio") é maior gargalo da Natura e representa mais de 96% de todo seu impacto. A meta até o fim desta década é reduzir 42% das emissões e a logística, embalagens e matérias-primas concentram a maior parte do problema.
"Essa solução é ambientalmente correta e possível, com custos competitivos. Podemos replicar essa mudança sistêmica e descarbonizar a nossa própria cadeia de valor ", destacou a diretora de sustentabilidade da Natura.
A partir da transformação, "Cajamar vira referência de tecnologia, inovação regulatória que serve de inspiração para outras cidades e operações", reforçou Josie Romero, vice-presidente de Operações, Logística e Suprimentos da Natura.
Descarbonização em escala
O projeto prevê o consumo de aproximadamente 3,5 milhões de metros cúbicos de biometano por ano em 2026, o equivalente ao consumo anual de 30 mil residências.
Com isso, a Natura espera evitar a emissão de até 1,3 mil toneladas de CO2 por ano, o que significaria o mesmo de retirar 280 carros de passeio das ruas diariamente.
Na frota logística, o impacto é ainda mais expressivo: a substituição do diesel pelo biometano reduz em até 90% as emissões dos 28 caminhões que abastecem na unidade, operados em parceria com a Coopercarga e ReiterLog.
"Esse é um passo concreto do nosso plano de transição climática", destacou Josie e sustentou que a inovação, intenções claras e parcerias estratégicas é o jeito "de fazer acontecer".
"Mostramos que é possível reduzir emissões de forma relevante em operações industriais e logísticas complexas[/grifar], usando uma solução que já está disponível, funciona e gera valor para o negócio", disse.
Ganhos para além da sustentabilidade
Além do impacto ambiental, a iniciativa trouxe ganhos expressivos de eficiência. Denise Leal, diretora de Operações da Natura, destaca que o biometano gerou incremento de mais de 15% de eficiência nas caldeiras industriais.
"Temos uma tubulação direta de alimentação e uma previsibilidade bastante boa. Isso dá tranquilidade para a operação, estabiliza custos e melhora a produtividade", explicou a executiva.
Denise também reforça que os desafios de implementação são baixos quando o projeto é bem estruturado.
"Uma vez que temos discussões regulamentares e técnicas feitas com as alçadas adequadas, é relativamente tranquilo. Se trata de uma decisão que nos ajuda a caminhar não só no aspecto da sustentabilidade, mas também na parte operacional", complementou.
Na logística, a tecnologia exclusiva desenvolvida pela Ultragaz permite que o abastecimento dos caminhões ocorra em cerca de 10 minutos. O tempo é significativamente inferior aos 40 a 50 minutos observados em postos comuns, encurtando os deslocamentos e consequentemente, a pegada de carbono.
São Paulo lidera produção de biometano no Brasil
O Estado de São Paulo concentra metade das plantas de biometano autorizadas no país, se consolidando como líder nacional na produção do combustível renovável derivado de resíduos orgânicos.
Atualmente, são 9 plantas autorizadas em operação (das 18 plantas nacionais). Destas, 4 unidades produzem biometano a partir de resíduos sólidos urbanos depositados em aterros sanitários. É o caso do aterro de Caieiras, que abastece a Natura. Já as outras 5 unidades utilizam resíduos agrícolas, principalmente do setor sucroenergético e de atividades pecuárias.
Além disso, outras 6 plantas estão em processo de autorização junto a órgãos federais. Quando entrarem em operação, poderão adicionar 203 mil m³/dia à capacidade instalada, segundo o governo estadual.
Fonte: EXAME