09/02/2026 06h05
Foto: Ilustrativa
Com os últimos anos sendo marcados por discursos futuristas e promessas superestimadas de projetos usando Inteligência Artificial, o mercado empresarial da América Latina amadureceu e passou a cobrar resultados concretos. Essa mudança ficou evidente no re:Invent, evento global da AWS, considerado a maior conferência de computação em nuvem do mundo, realizado no início de dezembro nos Estados Unidos.
O Brasil se destacou neste encontro não por apresentar protótipos, mas por levar ao palco principal transformações reais em operações críticas de saúde, distribuição e serviços essenciais. As experiências compartilhadas no evento posicionaram o país como berço de soluções de alto impacto, evidenciando que a nova era da IA empresarial não está sendo forjada apenas nos tradicionais epicentros de inovação, e sim em mercados que aprenderam a transformar desafios complexos em soluções de ponta com impactos mensuráveis.
Ao longo da conferência, ficou evidente que líderes empresariais buscam soluções orientadas a valor, não POCs sem uma real oferta de valor. O caso brasileiro de maior destaque apresentado por Ruba Borno, VP global da AWS, no palco ilustrou bem essa urgência: uma grande rede hospitalar nacional, a Rede Mater Dei de Saúde, obteve um ROI de 517% em menos de seis meses, reduziu glosas evitáveis, antecipou a entrada de receita e transformou todo o ciclo de receita, uma das dores mais agudas do setor de saúde. O impacto prático dessa transformação é profundo. Agentes de IA reduziram o tempo necessário para autorizações de procedimentos de 2 dias para apenas 40 minutos em alguns casos, impactando diretamente a sustentabilidade financeira dos hospitais e devolvendo o tempo ao cuidado do paciente.
Outro fator que chamou atenção foi a presença latino-americana no centro da narrativa global da AWS. Entre milhões de clientes atendidos no mundo e milhares de parceiros, apenas cinco iniciativas foram escolhidas para o palco principal do Keynote da VP (colocar descrição que aparece na abertura da apresentação dela no youtube), incluindo o caso da Rede Mater Dei de Saúde, que dividiu espaço com empresas do porte de Toyota e Condé Nast. Como exemplo da plataforma Amazon Bedrock AgentCore, outras duas brasileiras foram usadas como exemplo, o Grupo Elfa, com o caso CotAI, e o Itaú.
Esse protagonismo não é coincidência. O país vem recebendo investimentos contínuos da AWS: desde 2011, quando chegou ao Brasil, mais de US$ 3,8 bilhões já foram aplicados, segundo o AWS Economic Impact Study de 2023 e, R$ 10,1 bilhões (US$ 1,8 bilhão) foram confirmados até 2034 para expandir, construir, conectar, operar e manter data centers no Brasil, segundo site da empresa. Esse ciclo de investimentos sustentou a construção do quinto maior mercado da AWS no mundo, que também é o maior da América Latina, impulsionando uma base local composta por milhões de clientes. No re:Invent, o Brasil sinalizou que é um território com ecossistema maduro, conectado e preparado para escalar soluções com profundidade técnica e visão de negócio.
Esse ecossistema é fundamental num momento em que a IA agêntica deixa de ser automação incremental e passa a redesenhar cadeias inteiras de valor. Agentes capazes de raciocinar, planejar e tomar decisões auditáveis já estão presentes em áreas que antes dependiam exclusivamente de processos humanos fragmentados. Em operações de distribuição, por exemplo, o uso desses agentes trouxe rastreabilidade integral, redução de retrabalhos e uma governança mais robusta para decisões sensíveis em tempo real. Trata-se de uma força de trabalho digital que melhora a previsibilidade, reduz riscos e acelera resultados.
É importante lembrar que muitas das iniciativas brasileiras apresentadas hoje como referência global quase ficaram pelo caminho, travadas pelo ceticismo inicial. A ideia de que "é complexo demais" ou "vamos esperar para ver" quase impediu movimentos que agora se tornaram vitrines internacionais. O que permitiu avançar não foi apenas tecnologia de ponta, mas a determinação de lideranças que entenderam que adiar uma decisão crítica representa um risco maior do que inovar. Em um momento em que a tecnologia evolui rapidamente, coragem estratégica torna-se tão essencial quanto capacidade técnica.
Com essa combinação de investimentos, ecossistema sólido, histórias de impacto real e uma base crescente de clientes, o Brasil deixou de ser apenas consumidor de tecnologia para se tornar um mercado que molda tendências. A mensagem que encerrou o re:Invent 2025 foi inequívoca: a próxima fronteira da IA empresarial não será definida apenas por polos tradicionais de inovação, mas por mercados capazes de executar rápido, gerar resultados e escalar soluções com profundidade. O Brasil já provou que está nesse grupo, e o mundo agora está olhando na direção certa.
Rodrigo Pereira - CEO e Paulo Laurentys - COO, ambos da A3Data, consultoria especializada em dados e inteligência artificial.
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