14/01/2026 10h06
Foto: Divulgação
Uma startup brasileira tem usado Inteligência Artificial (IA) para transformar a operação de terminais de contêineres, reduzindo em 27% os movimentos improdutivos e elevando a produtividade em 21%. A Loopt desenvolveu uma solução que atua como um motor de otimização operacional, substituindo decisões baseadas no “feeling” por recomendações geradas a partir do processamento de milhares de dados em tempo real.
Segundo o fundador da Loopt, João Gutierres, a proposta nasce da necessidade de lidar com a complexidade do setor portuário. “Um terminal grande faz milhares de movimentações por dia, e tudo isso é feito no feeling. No fundo, a empresa está tomando milhares de decisões diariamente dessa forma”, afirmou.
O setor portuário, tradicionalmente operado por profissionais experientes, enfrenta limitações quando as decisões dependem apenas da vivência individual. “Você tem várias pessoas na operação, cada uma operando de um jeito. Não é que o ser humano não queira, ele não tem capacidade de processar todos os dados que uma máquina processa”, disse Gutierres.
Esse modelo gera uma série de ineficiências, como excesso de movimentos improdutivos, falhas de comunicação, equipes inchadas e aumento de custos. “Esses movimentos improdutivos representam um custo altíssimo por mês. No Porto de Santos, isso é bilionário por ano”, destacou.
Além do impacto financeiro, há reflexos diretos na produtividade e no meio ambiente. “Você tem mais caminhão parado, mais fila, menos produtividade e mais emissão de CO2, porque essas máquinas emitem muito”, acrescentou.
IA como motor de otimização
A solução da Loopt atua como uma camada de Inteligência Artificial conectada aos sistemas já utilizados pelos terminais, sem a necessidade de substituí-los. De acordo com Gutierres, o objetivo não é fazer gestão de dados como um YMS, mas ser um motor de otimização. “A gente se conecta aos sistemas que o cliente já tem para otimizar a operação”, explicou.
A IA processa milhares de variáveis simultaneamente e recomenda ações estratégicas, como o melhor posicionamento de contêineres no pátio. “Esse contêiner aqui é melhor você pegar daqui e colocar ali, porque ele já vai sair depois e você evita um outro movimento improdutivo”.
Ao reduzir movimentações desnecessárias, a tecnologia gera um efeito dominó positivo. “Quando você reduz movimento improdutivo, você emite menos CO2, aumenta a produtividade, reduz o tempo de espera do caminhão e torna a operação mais eficiente”, disse.
Nos projetos em que a tecnologia foi aplicada, a Loopt registrou uma redução de 27% nos movimentos improdutivos e um aumento de 21% na produtividade. Segundo João, os impactos foram além do esperado inicialmente.
“A gente era muito focado na redução de movimentos improdutivos, mas o próprio cliente começou a perceber melhora na qualidade do serviço, com redução de 30% a 35% no tempo de espera e maior abertura de grades”, relatou.
Maturidade do setor e gestão de pessoas
Apesar dos resultados, Gutierres avalia que a adoção de Inteligência Artificial no setor portuário ainda é limitada. “Eu diria que hoje o setor está numa nota de 3 a 4, numa escala de 0 a 10”, afirmou. Para ele, o caráter tradicional da indústria explica a adoção mais lenta, embora o interesse venha crescendo.
A introdução da IA também impacta a organização das equipes. Segundo João, a Loopt consegue prever, com antecedência, o potencial de redução ou realocação de mão de obra. “O sistema opera de forma totalmente orquestrada pela IA, então você não precisa de intermediários para cada operador”, disse.
De acordo com ele, a tendência observada é a realocação de pessoas para outras funções. “Essa pessoa pode supervisionar o sistema, atuar em treinamento ou absorver novas demandas, porque o objetivo do cliente é ser mais produtivo e gerar mais receita”, afirmou.
Da universidade ao mercado portuário
A origem da Loopt remonta à participação dos fundadores — então estudantes de engenharia naval — em um hackathon promovido pela empresa de navegação CMA CGM. “A gente já estudava inteligência artificial e entrou no hackathon com a ideia de aplicar IA para resolver o problema”, relatou João.
Após vencerem a competição, os fundadores foram convidados pela CMA CGM e pela Mercosul para passar um período dentro das empresas, em um modelo semelhante a um estágio de verão, com o objetivo de validar o sistema desenvolvido. “Os resultados foram positivos. A gente teve uma assertividade de mais de 90% com o algoritmo”, afirmou.
Inicialmente voltada para armadores, a solução evoluiu a partir de uma constatação prática observada durante esse processo. “A gente conseguiu otimizar o navio, mas o contêiner saía do navio e continuava sendo improdutivo no porto”, explicou. A partir disso, a Loopt passou a direcionar seus esforços para os terminais de contêineres.
Escalabilidade e próximos passos
A tecnologia da Loopt foi desenvolvida para ser escalável e adaptável a diferentes ambientes operacionais. Embora o foco atual esteja nos terminais de contêineres, a empresa já recebe demandas para aplicar a solução em outros contextos com desafios semelhantes de movimentação e organização. “A tecnologia é própria e intercambiável, então essa expansão é natural”, disse.
Para João, o próximo grande salto tecnológico no setor virá da integração entre inteligência artificial e automação. “Quando você unir IA com robotização, você vai ter operações praticamente autônomas”, afirmou. Segundo ele, esse avanço ainda depende de maturidade de mercado e de investimentos em infraestrutura, mas é visto como um caminho inevitável.
Visão da operação: eficiência, sustentabilidade e desafios
Na prática operacional, os efeitos da adoção da Inteligência Artificial também foram percebidos no dia a dia do terminal. Segundo Robson Luiz Bissani, gerente de Operações do Ecoporto, a tecnologia contribuiu para reduzir tempos operacionais e tornar o fluxo mais eficiente, especialmente na gestão do pátio.
“A utilização de IA nas operações teve um impacto muito forte na redução dos tempos de operação e, consequentemente, aumento na produtividade. O fluxo de trabalho ficou mais enxuto, trazendo mais facilidade nas movimentações de containers”, disse.
Os ganhos também se refletiram diretamente no atendimento aos caminhões e na capacidade de movimentação diária, com impacto na organização das janelas operacionais. “As principais mudanças que percebemos foram a redução de 21% no tempo médio de espera dos veículos para carregar e por consequência, conseguimos ampliar nossa capacidade de movimentos em 20%, que impacta diretamente na disponibilidade de janelas para carregamentos e posicionamentos”, destacou Bissani.
A redução de movimentos improdutivos também trouxe efeitos mensuráveis do ponto de vista ambiental, com diminuição no consumo de combustível dos equipamentos. “A redução de movimentos traz impactos consideráveis na redução do consumo de combustível das empilhadeiras. Como a EcoRodovias é signatária da agenda 2030, o projeto se conecta diretamente com nossos indicadores para redução de emissão de carbono no Escopo 1”, pontuou o executivo.
Apesar dos avanços, Bissani apontou que a ampliação do uso de Inteligência Artificial nos terminais brasileiros ainda enfrenta obstáculos estruturais, tecnológicos e humanos. Do ponto de vista estrutural, ele destacou a necessidade de investimentos para viabilizar a adoção plena da tecnologia.
“A infraestrutura é um grande desafio, pois os terminais precisam atualizar seus sistemas e equipamentos para poder usar todo o potencial da tecnologia e isso representa um desafio financeiro pelos altos custos envolvidos”, avaliou.
Outro ponto sensível está relacionado à segurança da informação, especialmente diante da integração entre sistemas e do grande volume de dados trocados nas operações. “A integração de sistemas e a grande troca de dados, exigem uma ação muito forte para evitar vazamentos e consequente utilização em atividades ilegais”, destacou o gerente de Operações do Ecoporto.
Além disso, há desafios ligados à gestão de pessoas e à adaptação das equipes às novas tecnologias. “Resistência a novas tecnologias por receio de desemprego, principalmente quando se fala em automação, e necessidade de treinamento para utilizar as ferramentas”, ressaltou.
Fonte: Mundo Logistica