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Gestão

Gerdau encerra produção na sua fábrica em Minas Gerais

Fechamento da unidade de Divinópolis afeta trabalhadores, fornecedores e comércio local

05/11/2026 10h11

Foto: Divulgação

A decisão da Gerdau de encerrar a produção de aço em uma de suas principais unidades em Minas Gerais ameaça cerca de mil empregos e pode provocar impactos em diferentes setores da economia de Divinópolis. O fechamento da usina foi comunicado nesta terça-feira, 3, e faz parte de uma estratégia da companhia para concentrar as operações em unidades consideradas mais competitivas.

A siderúrgica atribui a decisão à perda de competitividade da planta, principalmente pela falta de fornecimento de minério de ferro a preços considerados vantajosos. A empresa também aponta o avanço das importações de aço no Brasil e as condições desfavoráveis do mercado internacional, especialmente para as exportações.

Em comunicado, a companhia afirmou que pretende concentrar a produção brasileira em ativos "mais competitivos, eficientes e com maior nível tecnológico".

A unidade de Divinópolis é uma das três usinas integradas da Gerdau no Brasil. Com o encerramento da produção de aço no município, Ouro Branco passará a ser a única planta integrada da companhia em operação no país.

Fechamento ameaça mil trabalhadores

Segundo a Prefeitura de Divinópolis, aproximadamente mil pessoas serão diretamente afetadas pela decisão, entre funcionários próprios e terceirizados. O número representa 7,4% de todos os empregos industriais do município.

A administração municipal também estima que a usina tenha participação de até 15% na arrecadação de ICMS repassada à cidade, o que amplia a preocupação com os efeitos econômicos do encerramento.

A preocupação não se limita aos trabalhadores da siderúrgica. Nos bairros Interlagos e Porto Velho, localizados no entorno da unidade, existem mais de 2 mil empresas, sendo 93% microempresas. Parte desses negócios mantém relações com a cadeia produtiva da usina, incluindo fornecedores, transportadoras, estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços.

A prefeitura anunciou que pretende lançar, ao longo da semana, um programa para reduzir os impactos da decisão sobre os trabalhadores e os empreendimentos locais.

"A Gerdau é parceira histórica de Divinópolis. Reconhecemos essa trajetória, mas não minimizamos a gravidade da decisão e seus impactos. Nossa prioridade é apoiar as pessoas impactadas, acompanhar a cadeia produtiva e defender a economia da cidade. Divinópolis tem uma economia diversificada, mas isso não reduz a gravidade deste momento. Vamos intensificar as conversas com o setor produtivo e fazer tudo o que está ao alcance do Município, sem promessas que não dependem de nós", afirmou a prefeita Janete Aparecida.

Empresa avalia transferência de funcionários

Diante do encerramento, a Gerdau informou que estuda a possibilidade de transferir parte dos funcionários para outras unidades da companhia.

A empresa também promete oferecer cursos de qualificação técnica e workshops para auxiliar os trabalhadores na busca por novas oportunidades profissionais.

A companhia, no entanto, não detalhou quantos funcionários poderão ser aproveitados em outras plantas.

Por que a Gerdau vai fechar a usina?

Entre os principais motivos apontados pela siderúrgica está a dificuldade de manter a competitividade da operação diante dos custos de produção. A empresa destaca a ausência de fornecimento de minério de ferro a preços competitivos, além do aumento das importações e das condições desfavoráveis para exportar aço.

O cenário de concorrência internacional também aparece nos dados apresentados pela companhia. Em 2025, o Brasil importou 6,4 milhões de toneladas de aço, um crescimento de 7,4% em relação ao ano anterior e o terceiro recorde anual consecutivo.

A participação do produto importado no consumo nacional chegou a 21%, índice 60% superior à média registrada nos últimos dez anos, segundo dados do Instituto Aço Brasil citados pela Gerdau.

O presidente-executivo da companhia, Gustavo Werneck, já vinha criticando a concorrência do aço chinês comercializado a preços que considera desleais.

O que acontece com a produção de aço em Minas Gerais?

A unidade de Divinópolis tem uma característica diferente das chamadas mini-mills, que utilizam fornos elétricos para derreter sucata e produzir aço.

A planta é uma usina integrada, modelo que utiliza minério de ferro como matéria-prima e altos-fornos para produzir ferro metálico. Em Divinópolis, o processo utiliza carvão vegetal no lugar do carvão mineral.

A Gerdau classifica essa tecnologia como uma rota de baixa emissão de gases de efeito estufa, já que o carvão vegetal é produzido em fazendas da própria companhia.

Com a paralisação da produção em Divinópolis, a unidade de Ouro Branco concentrará toda a produção de aço das usinas integradas da empresa no Brasil. Em 2025, essa planta respondeu por 55,2% do aço bruto produzido pelo segmento.

A companhia também opera 11 mini-mills no país e possui duas minas de minério de ferro em Minas Gerais: Várzea do Lopes e Miguel Burnier. O minério granulado extraído nesses locais é destinado principalmente à unidade de Ouro Branco.

No ano passado, as usinas brasileiras da Gerdau consumiram 6,3 milhões de toneladas de minério de ferro, com abastecimento proveniente tanto de minas próprias quanto de mineradoras vizinhas.

Outra usina já havia suspendido atividades

O encerramento em Divinópolis não é o primeiro movimento de paralisação de uma usina integrada da Gerdau em Minas Gerais. Em 2024, a unidade de Barão de Cocais também suspendeu a produção.

No Formulário de Referência, a companhia atribuiu a medida às condições mais difíceis do mercado interno brasileiro. Naquele ano, a empresa também recorreu à hibernação de unidades como estratégia para reduzir custos.

Em 2025, a Gerdau informou ter realizado cortes na força de trabalho diante do que classificou como aumento significativo das importações predatórias de aço.

No documento, a empresa também alertou que a ausência de medidas governamentais contra o aço subsidiado poderia levar a uma reestruturação das operações brasileiras, incluindo o encerramento de outras capacidades de produção e ajustes no quadro de funcionários.

Gerdau tem processo trabalhista de R$ 162 milhões

Além das mudanças na operação industrial, a unidade de Divinópolis é alvo de uma ação coletiva trabalhista movida em 2010 pelo sindicato dos metalúrgicos do município.

O processo cobra o pagamento de adicionais de insalubridade e periculosidade para funcionários de diferentes áreas da planta. O valor envolvido na ação é de R$ 162,3 milhões.

A própria Gerdau classifica como provável a possibilidade de perda no processo e mantém R$ 27,6 milhões provisionados para cobrir possíveis pagamentos.

Após decisões desfavoráveis à companhia, o caso aguarda no Tribunal Superior do Trabalho (TST) a análise de um recurso extraordinário encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Baixa contábil de R$ 1,96 bilhão

Outro dado relacionado à situação das operações industriais da companhia aparece no balanço financeiro de 2025. A Gerdau reconheceu R$ 1,96 bilhão em perdas por desvalorização de ativos no Brasil, sem impacto direto no caixa.

Segundo as demonstrações financeiras, a baixa contábil está relacionada à revisão do plano de investimentos das plantas industriais, à redução no nível de utilização de determinados ativos e à expectativa de condições econômicas menos favoráveis.

A companhia, porém, não identificou quais unidades foram atingidas pela desvalorização.

Fonte: A Tarde