02/11/2026 06h06
Foto: Valter Pontes - Divulgação
Completando 525 anos do seu batismo histórico, realizado em 1501, quando a expedição portuguesa comandada por Gaspar de Lemos, trazendo a bordo o cartógrafo Américo Vespúcio escreveu o nome da Baía em 1º de novembro, homenageando o dia de Todos-os-Santos, registrou o que hoje passou a ser o maior patrimônio marítimo do estado e uma das referências geográficas, culturais e econômicas do Brasil.
Durante o período colonial, a Cidade do Salvador, abrigada da Baía de Todos-os-Santos (BTS), consolidou-se como um dos principais centros portuários do Atlântico Sul. Por suas águas circulavam mercadorias, embarcações, pessoas e riquezas que ajudaram a construir a história econômica brasileira. Conhecido pelos navegadores da época como umbigo da América do Sul, o Forte de São Marcelo ostenta nos mapas antigos o principal Porto do Brasil, fundamental para o comércio internacional, especialmente na exportação de açúcar e outros produtos do Recôncavo Baiano.
Mais do que uma celebração histórica, o aniversário da BTS, conhecida pelos tupinambás como Kirimurê, representa uma oportunidade para reflexões sobre a preservação do seu patrimônio natural e cultural, e do desenvolvimento urbano sustentado das suas comunidades costeiras. Contabilizando o valor da economia do mar na Bahia, que movimenta atualmente cerca de 80 bilhões de reais por ano (2 trilhões de reais no Brasil), mais que uma herança, a comemoração é um estímulo para investimentos na educação para o mar, em diferentes níveis, como legado da gente do presente para as futuras gerações.
Reconhecendo a BTS como um dos potenciais polos da economia do mar brasileira, a bicentenária Associação Comercial da Bahia (ACB) publicou a Carta da Baía, em 2014, articulando governos, universidades, empresas, instituições científicas e sociedade civil, declarando a BTS e Salvador, sua Cidade Mãe, como Capital da Amazônia Azul. Este esforço contínuo exige planejamento, inovação tecnológica, qualificação profissional constante e políticas públicas inovadoras, apresentados em um 'Atlas da Economia do Mar' digital, em elaboração.
Posicionada no centro da Amazônia Azul, a BTS guarda vantagens geográficas, históricas e culturais que precisam ser transformadas em estratégia econômica. O aniversário palindrômico de 525 anos (palíndromo, sequência de caracteres que se lê da mesma forma tanto da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda) revela como a BTS pode ser interpretada de várias formas.
Desempenhando papel estratégico na economia baiana através dos séculos, a BTS continua escrevendo histórias do crescimento dos seus municípios lindeiros guardadas no acervo do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB.org.br). Seu entorno concentra atividades portuárias (10 portos), industrias petrolíferas, petroquímicas, pesqueiras e de serviços marítimos. A presença de terminais, estaleiros e infraestrutura logística mostra que a baía, além de uma paisagem de beleza extraordinária, representa um ativo econômico reconhecido internacionalmente como o maior e melhor porto natural do Atlântico Sul, cobiçado por armadores que movimentam cargas globalmente.
Um exemplo claro deste movimento é a MSC. Adotando uma postura agressiva de investimentos o CEO da Mediterranean Shipping Company (MSC), Soren Toft, decidiu pela aquisição da Wilson Sons - fundada em Salvador, no ano de 1837, pelos irmãos e comerciantes escoceses Edward e Fleetwood Pellew Wilson. Toft acompanha os fatos e dados globais que orientam investimentos no potencial estratégico de expansão e consolidação no hemisfério Sul, onde circula cerca de 20% do tráfego marítimo mundial. O Tecon Salvador, que hoje pertence à MSC - olhando para vários lados - celebra o aniversário palindrômico da BTS apresentando-se ao mundo com um terminal situado na Capital da Amazônia Azul - o que lhe confere status no seu relatório ESG global.
Também situada às margens da Capital da Amazônia Azul, em São Francisco do Conde, a Acelen, que responde por cerca de 17% de todo o ICMS arrecadado no estado da Bahia, observando normas e tendências internacionais de descarbonização adotadas pelo Mubadala, seu fundo proprietário, sediado em Dubai, avança na chamada Acelen Renováveis, um dos maiores projetos globais para produção de combustíveis renováveis a partir de uma planta nativa brasileira, a macaúba. O Atlas da Economia do Mar da Palindrômica BTS precisa acompanhar e registrar essas ações inovadoras sustentáveis.
Empresas que operam no comércio marítimo internacional, subordinadas às regras da Organização Marítima Internacional (IMO), conhecem as normativas da preservação marinha e a regulação ambiental do transporte marítimo, e estão atentas à convenções globais mostrando como o desenvolvimento econômico deve caminhar junto com a conservação e a valorização da cultura e das comunidades tradicionais. Ações contra a poluição, lançamento de resíduos, degradação de manguezais, ocupação desordenada do litoral e a pressão sobre os recursos pesqueiros, são precificadas e incluídas nos orçamentos corporativos, avaliadas pela IA no gerenciamento de riscos e acompanhadas por investidores.
Comemorando o aniversário da BTS, o 2º Distrito Naval, conhecido nacionalmente como Primaz do Brasil por estar sediado na Capital da Amazônia Azul, está organizando neste início de novembro a ‘Aramuss’, colocando em evidência soluções avançadas e tecnologias disruptivas aplicadas a Sistemas Marítimos Não Tripulados, reunindo inovação, tecnologia e estratégia em um dos mais relevantes eventos sobre veículos não tripulados do país.
Qual será o valor da pequena economia do mar que acontece em praias da BTS? Quanto movimentam os pequenos empreendedores das barracas, as marisqueiras e pescadores, os vendedores ambulantes de cervejas, gelo e as baianas de acarajé? E as atividades da náutica, do turismo e do lazer acompanhadas pela Associação Náutica da Bahia - ANB? Qual será o valor da economia produzida pela atividade portuária, de logística e de transporte, que reúnem conglomerados das grandes, com exércitos de pequenas e micro empresas? Todos fazem parte das comemorações da BTS.
Dos 693 km² da área total do município de Salvador (IBGE), apenas 343 km² estão em território seco e os outros 350 km² no território molhado da BTS. O novo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) tem um novo desafio – a Urbe Molhada. Dever de casa para o Sebrae Bahia que divulga conceitos dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e precisa de exemplos práticos e mensuráveis da sua aplicação local. Os ODS lidam diretamente com essas iniciativas e ainda inspiram a criação, na Capital da Amazônia Azul, do Centro da Economia do Mar do Sebrae, um presente há muito esperado para o palindrômico 525º aniversário da BTS.
Eduardo Athayde - diretor do WWI no Brasil. [email protected]
Publicado no A Tarde
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