19/01/2026 06h06
Foto: Ilustrativa
Em um mundo no qual a pauta climática está presente diariamente nos noticiários – que mostram ondas de calor intenso em países da Europa e fortes chuvas no Brasil e nos Estados Unidos – entender o posicionamento das organizações, sejam elas públicas ou privadas, é essencial! Nesse sentido, com intuito de reverter esse cenário, a adaptação à emergência climática depende de se lançar um olhar para o novo; de pensar soluções diferentes, por meio de pesquisas e investimentos.
Trazer transparência para o tema exige comunicação clara e consistente. No entanto, existem várias nomenclaturas que empresas usam para se declararem comprometidas com uma gestão climática, são elas: Net Zero e Carbono Neutro. É importante compreender que esses termos possuem conceitos diferentes, sendo fundamental alinhar a nomenclatura utilizada para comunicar de forma precisa e clara as estratégias climáticas de cada organização.
Compreender a diferença entre os termos e utilizá-los corretamente está diretamente ligada à prevenção ao greenwashing — em português, “lavagem verde”. Essa prática ocorre quando organizações aparentam ser sustentáveis, mas, na verdade, usam termos como carbono neutro e net zero de forma equivocada — muitas vezes por falta de conhecimento técnico. Embora ambos estejam relacionados à redução das emissões de carbono, eles têm significados distintos. Confundi-los pode induzir ao engano e comprometer a credibilidade das iniciativas de descarbonização.
É fundamental que as empresas tenham direcionamento claro sobre a nomenclatura utilizada. Isso ajuda a orientar de forma precisa as estratégias de gestão climática, e construir uma comunicação e um marketing mais assertivos sobre a pauta de descarbonização. Dispor desse direcionamento traz transparência à jornada climática da empresa – que inicialmente inclui no planejamento das empresas ações de compensação de emissões de gases de efeito estufa (GEE), mas cujo foco principal deve ser o aumento gradual de ações de redução dessas emissões.
Rumo ao Net Zero…
Inserir em suas comunicações net zero ou zero líquido, se entende por zerar as emissões de GEE de determinado projeto, empresa ou operação. Dentro desse processo há as emissões residuais, que não podem ser eliminadas por questões tecnológicas ou econômicas, que precisam ser compensadas de alguma forma.
Esse processo está alinhado ao Acordo de Paris, ratificado em 2015 por 196 países durante a COP21, que busca limitar o aumento da temperatura global a até 1,5°C, em comparação aos níveis pré-industriais, até 2050.
Assim, empresas e países devem estabelecer um ano-base, ou seja, um ponto de partida para medir suas emissões, e, a partir disso, definir metas anuais de redução, calculadas com base em evidências científicas, de forma a garantir que o processo ocorra no volume e na velocidade necessárias. De modo geral, as reduções de emissões podem ser diretas (definidas como reduções de escopo 1) ou indiretas, oriundas do uso de energia para consumo próprio (escopo 2) ou de resíduos, transporte de funcionários, viagens, cadeia de valor e investimentos (escopo 3).
Esta metodologia é utilizada pela Science Based Targets Initiative (SBTi), que apoia as empresas na definição de metas por meio de metodologias e ferramentas específicas.
… e ao Carbono Neutro
Já o termo carbono neutro se refere à compensação apenas das emissões de gás carbônico (CO?), desconsiderando os demais GEE. Ele consiste no cálculo das emissões geradas pela atividade empresarial, desenvolvimento de projetos ou iniciativas que capturem ou reduzam a mesma quantidade de emissões.
No entanto, a terminologia de carbono neutro não está totalmente alinhada às definições da iniciativa SBTi, pois envolve operações diferentes relacionadas ao processo da empresa. Por isso, essa definição é aplicada quando há compensação de emissões ou quando o processo de produção de um produto não resulta em emissão líquida de carbono.
A compensação ocorre por meio da definição de uma quantidade específica de toneladas de carbono equivalente (tCO2eq) às emissões de GEE. Ela pode ser realizada pela compra de créditos de carbono provenientes de projetos de restauração, tecnologias de sequestro e armazenamento de carbono, projetos de energia de biomassa, captura de metano, ou processos de transição para uma matriz energética renovável.
Outra possibilidade para se efetuar a compensação é por meio de práticas de agricultura regenerativa, que promovam a recuperação, manutenção e conservação dos recursos hídricos e do solo. Para este fim, são adotadas iniciativas como agricultura de precisão e controle biológico, além da integração e diversificação dos sistemas produtivos e a conservação de ecossistemas como florestas nativas, áreas de restingas ou manguezais, conhecidos como blue carbon.
Em 2022 foi lançada uma norma específica da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a PR 2060, que detalha os requisitos a serem cumpridos para se demonstrar a neutralidade de carbono.
Iniciativas internacionais
Além das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) – que representam os compromissos de redução de emissões assumidos pelos países – surgiram, desde o Acordo de Paris, diversas iniciativas voltadas ao setor privado. Essas ações incentivam as empresas a empreender esforços para limitar o aumento da temperatura média global a até 1,5ºC. Entre elas, destacam-se:
Diante de tudo isso, é fundamental que as empresas integrem a gestão climática à sua estratégia de negócio. Isso significa não apenas estabelecer metas de redução de emissões de GEE, mas, principalmente, adotar ações concretas para alcançá-las, promovendo transformações nos processos, produtos e modelos operacionais.
Ao longo dessa jornada, é igualmente essencial realizar diligências de integridade — garantindo que todas as iniciativas, inclusive aquelas relacionadas à compensação de emissões, sejam conduzidas com ética, transparência e baseadas em critérios robustos de adicionalidade e rastreabilidade.
Essa postura deve ser ambiciosa e ousada. É essencial que os sistemas produtivos tenham recursos para reduzir suas emissões de forma efetiva. Ao longo do tempo, esses investimentos em compensação devem diminuir gradualmente ou até mesmo migrar para estratégias de sequestro de carbono e manutenção de emissões líquidas zero na operação, promovendo um compromisso sustentável e de longo prazo. Dessa forma, a ação climática empresarial se alinha tanto à ambição global de limitar o aquecimento a 1,5°C quanto às expectativas crescentes de investidores, consumidores e demais stakeholders.
E, relembrando: Net Zero é a gestão de todas as operações da empresa, sejam elas diretas ou indiretas, com emissões líquidas zero alinhadas à ciência (SBTi). Seu objetivo é limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, conforme Acordo de Paris. Já, Carbono Neutro são processos ou produtos compensados ou já neutros por natureza. Seu objetivo é minimizar o impacto das atividades humanas no clima global.
Danielly de Andrade Mello Freire - engenheira ambiental, Mestre em Ambiente, Saúde e Sustentabilidade pela USP e Gerente de Clima do Pacto Global da ONU – Rede Brasil
Publicado em NOTÍCIA SUSTENTÁVEL
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