21/02/2026 08h05
Foto: Divulgação
A indústria da moda é responsável por aproximadamente 10% das emissões globais de CO2, por alto consumo de água doce e pela geração de milhões de toneladas de resíduos sólidos, o setor é apontado por organismos internacionais como o segundo mais poluente do planeta, atrás apenas da indústria de petróleo e gás. Em meio à pressão por mudanças estruturais, iniciativas de economia circular e logística reversa ganham protagonismo como alternativas viáveis para reduzir impactos ambientais e sociais.
É nesse contexto que o projeto Repense Reuse, desenvolvido pela Humana Brasil, encerra 2025 com um balanço robusto: 829 toneladas de resíduos têxteis recolhidos nas áreas em atuação, com destaque para o Nordeste, onde a iniciativa vem se consolidando como referência em reaproveitamento, geração de renda e educação para o consumo consciente. Somente na Bahia, foram 546 toneladas recolhidas em 2025, enquanto Pernambuco registrou de 107 toneladas entre maio e dezembro, números que evidenciam a escala e a capilaridade do projeto.
Moda, resíduos e a urgência de novos modelos produtivos
Dados da Organização das Nações Unidas indicam que, a cada segundo, o equivalente a um caminhão de lixo têxtil é descartado no planeta. Estima-se que a indústria da moda gere cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos por ano, enquanto menos de 1% dos materiais utilizados na produção de roupas retorna ao ciclo produtivo em forma de novas peças.
Tecidos sintéticos como poliéster, nylon e acrílico, amplamente utilizados pela indústria, liberam microplásticos a cada lavagem, contaminando oceanos e cadeias alimentares. Mesmo fibras naturais, como o algodão convencional, apresentam elevado impacto ambiental: a produção de uma única calça jeans pode consumir até 10 mil litros de água, considerando todas as etapas do processo produtivo.
Nesse cenário, o descarte inadequado de roupas, calçados e acessórios agrava a sobrecarga dos sistemas de resíduos urbanos, amplia a emissão de gases de efeito estufa e pressiona os ecossistemas já fragilizados. A economia circular surge, portanto, não apenas como tendência, mas como necessidade estrutural.
Logística reversa como estratégia ambiental e econômica
O Repense Reuse atua justamente no elo mais negligenciado da cadeia têxtil: o pós-consumo. Por meio da instalação de contêineres de coleta em locais de grande circulação, como centros comerciais, parques urbanos, ecoestações e áreas públicas, o projeto facilita o descarte responsável e estimula uma mudança cultural no destino dos resíduos têxteis.
Cada peça arrecadada passa a integrar um fluxo estruturado de triagem, reaproveitamento, revenda ou transformação criativa, reduzindo a pressão sobre aterros sanitários e evitando que resíduos cheguem a rios, canais e mares. Ao mesmo tempo, a iniciativa cria oportunidades econômicas e sociais ao longo de toda a cadeia.
Para Claudia Andrade, executiva de implementação do Repense Reuse, o impacto vai além dos números. “Quando uma peça de roupa é reutilizada, evita-se não apenas o descarte de resíduos sólidos, mas também a emissão de CO2 que seria gerada na produção de um novo item. Trabalhar a reutilização e o consumo consciente é uma ação direta no combate à crise climática.”
Bahia amplia presença e consolida liderança regional
Na Bahia, o Repense Reuse se consolidou em 2025 como uma das maiores operações do projeto no país. Com 291 pontos de coleta ativos, a iniciativa está presente tanto em Salvador quanto em municípios estratégicos do interior e da Região Metropolitana.
A capital baiana segue como um dos principais polos de arrecadação, mas a expansão para cidades como Feira de Santana, importante entroncamento logístico e econômico do estado, e Lauro de Freitas ampliou significativamente o alcance da iniciativa. A presença nessas regiões facilita o acesso da população à doação responsável e fortalece a cadeia da moda circular em áreas com grande densidade urbana e comercial.
O volume de 546 toneladas recolhidas ao longo de 2025 posiciona a Bahia como referência regional em logística reversa têxtil, contribuindo diretamente para a redução da pegada ambiental da moda no estado.
Pernambuco fortalece triagem e prepara expansão comercial
Em Pernambuco, o avanço do Repense Reuse ao longo de 2025 foi marcado pela ampliação da rede de coleta e pelo fortalecimento da infraestrutura de triagem. Com 93 coletores instalados na Região Metropolitana do Recife, o projeto mobilizou a população e ampliou de forma consistente o volume de doações.
Um dos principais marcos foi a consolidação do Centro de Triagem no Recife, que desempenha papel estratégico na cadeia da economia circular têxtil. No local, as peças passam por separação técnica, garantindo que itens em bom estado sigam para reutilização e revenda, enquanto materiais sem condições de uso sejam direcionados ao reaproveitamento criativo.
Além do impacto ambiental, o centro gera empregos formais, promove capacitação e fortalece a inclusão social. Para 2026, está prevista a inauguração de uma loja second hand da Humana Brasil no estado, ampliando o alcance comercial da moda circular pernambucana.
Economia circular como vetor de desenvolvimento social
O balanço de 2025 reforça o Repense Reuse como um modelo estruturado de economia circular, alinhado a práticas de ESG (ambiental, social e governança). O impacto do projeto não se limita à redução de resíduos: ele movimenta uma cadeia que envolve logística, comércio, microempreendedorismo e financiamento de projetos sociais.
Segundo Claudia Andrade, a expansão territorial é parte central dessa estratégia. “Levar o Repense Reuse para diferentes estados é uma forma de descentralizar a sustentabilidade e mostrar que a mudança começa no cotidiano das pessoas, em qualquer cidade.”
Além da Bahia e de Pernambuco, o projeto mantém operações no Distrito Federal e em Sergipe, reforçando sua capilaridade e capacidade de adaptação às realidades locais.
Logística reversa de têxteis avança em Sergipe e no Distrito Federal
Em Aracaju (SE), a iniciativa conta com 65 Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) distribuídos pela cidade, voltados à coleta de têxteis pós-consumo. Os materiais recolhidos seguem de Aracaju para Lauro de Freitas (BA), onde passam por um processo de triagem e classificação, sendo posteriormente encaminhados para reutilização, reciclagem criativa ou coprocessamento, conforme o estado e o potencial de reaproveitamento. Somente em 2025, foram descartadas 77 toneladas de têxteis por meio do sistema.
Já em Brasília (DF), a operação possui 75 pontos de arrecadação espalhados pela cidade. No mesmo período, o programa registrou a coleta de 97.002 toneladas de resíduos têxteis, reforçando a relevância da logística reversa e da gestão sustentável de resíduos sólidos no contexto urbano.
Lojas Humana: moda circular que gera renda e impacto social
As Lojas Humana são um dos pilares do ecossistema Repense Reuse. Em Salvador, os pontos de venda já se tornaram referência em moda circular e acessível, com unidades em bairros como Itapuã, Piedade, Uruguai e Cajazeiras.
Além do varejo, o modelo inclui lojas no formato atacado, que beneficiam microempreendedores locais, reduzem custos de aquisição e fortalecem economias periféricas. Toda a renda obtida com a venda das peças é direcionada para projetos sociais, ampliando o impacto positivo do ciclo de reaproveitamento.
Um modelo que aponta caminhos para o setor têxtil
O balanço de 2025 evidencia que o Repense Reuse vai além da coleta de roupas. O projeto se consolida como uma plataforma de transformação social, ambiental e econômica, ao propor uma nova relação com o consumo e oferecer soluções práticas para um dos maiores desafios da indústria da moda.
“Transformar o descarte em oportunidade é um dos grandes desafios da moda contemporânea. A economia circular redefine o consumo, preserva recursos naturais e costura um futuro mais sustentável”, finaliza Claudia Andrade.

Foto: Divulgação
Repense Reuse – Balanço 2025
829 toneladas de têxteis recolhidos nas áreas em atuação
Bahia: 546 toneladas | Pernambuco: 107 toneladas
Estados de atuação: Bahia, Pernambuco, Distrito Federal e Sergipe
Cidades de destaque: Recife, Aracaju, Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas
Impactos: redução de resíduos têxteis, economia de recursos naturais, geração de empregos e fortalecimento da economia circular
Destino das doações: reutilização, revenda em moda circular e reaproveitamento criativo
Repense Reuse - Como doar
Para fazer o descarte correto de resíduos têxteis utilizando os pontos do Repense Reuse, siga estas etapas:
1. Separe os têxteis
Antes de levar até o ponto de coleta, faça uma triagem básica:
2. Separe adequadamente
3. Encontre um ponto de coleta Repense Reuse
4. Leve os resíduos ao ponto de coleta
Ao chegar no ponto de coleta:
5. Compartilhe e incentive
Promover o uso dos pontos do Repense Reuse ajuda a conscientizar outras pessoas e fortalece a economia circular.