20/07/2026 11h31
Foto: Divulgação
A demografia brasileira está mudando e o mercado de trabalho acompanha esse ritmo. Dados do IBGE apontam que a participação de profissionais com 50 anos ou mais no mercado saltou de 19,1% em 2012 para 24,3% em 2024, representando mais de 13 milhões de trabalhadores ativos no país. Longe de ser o prenúncio da aposentadoria, chegar aos 50 anos hoje significa maturidade produtiva — embora o caminho para a recolocação ainda esbarre no etarismo corporativo.
Para discutir essas transformações e fomentar soluções práticas de empregabilidade, São Paulo recebe, entre os dias 13 e 15 de agosto de 2026, a 9ª edição do MaturiFest, o maior festival de trabalho, empreendedorismo e longevidade para o público 50+ do Brasil.
Realizado na Unibes Cultural e patrocinado pelo Grupo Bradesco Seguros, o evento promovido pela startup Maturi reunirá especialistas, empresas e profissionais para debater como a diversidade geracional molda o futuro dos negócios. "Estamos diante de uma transformação demográfica que traz desafios, mas também oportunidades para organizações que desejam compreender melhor as novas dinâmicas da sociedade e do mercado", aponta Alexandre Nogueira, Diretor de Marketing do Grupo Bradesco Seguros.
"Entender essa realidade é fundamental para empresas que desejam se manter conectadas às mudanças. Embora o mercado avance, barreiras invisíveis persistem. "O desafio para se reinserir não ocorre por falta de competência, mas devido à percepção equivocada que algumas empresas ainda têm sobre os profissionais 50+", explica Lizi Rodrigues, gerente de operações da Refuturiza, plataforma de educação e empregabilidade.
Mitos
Segundo a especialista, os principais mitos corporativos associam a maturidade a uma suposta resistência a novas tecnologias, menor adaptabilidade ou custos mais elevados. "Na prática, vemos o oposto: são profissionais com grande capacidade de aprendizado, visão estratégica e um equilíbrio emocional que acelera resultados e reduz erros", defende.
Além disso, sistemas automatizados de recrutamento (as chamadas ATSs) e algoritmos de Inteligência Artificial podem isolar candidatos maduros se estes não souberem estruturar seus perfis digitais. A dica de Lizi é encarar a IA como aliada: atualizar o LinkedIn, usar palavras-chave estratégicas da vaga de interesse no currículo e demonstrar familiaridade com as ferramentas do mercado.
Para quem busca retornar ao mercado tradicional ou se reinventar em novas frentes, existem caminhos estratégicos fundamentais de posicionamento, requalificação e comportamento apontados por Lizi Rodrigues.
Transição
O ponto de partida dessa transição deve ser o ajuste no foco do currículo, deixando de lado apresentações extensas que listam décadas de histórico profissional irrelevante. O ideal é que o documento se concentre no que foi realizado nos últimos 10 a 15 anos de atuação, priorizando resultados práticos, competências modernas e o valor que o candidato pode entregar hoje para resolver as dores atuais das empresas.
Essa transformação exige um investimento constante em reskilling, ou seja, na requalificação profissional. Embora a experiência acumulada abra portas, é a disposição para aprender continuamente que as mantém abertas. Nesse processo de atualização, o foco deve se dividir entre competências técnicas e comportamentais.
No campo técnico, além do aprofundamento na própria área de atuação, é preciso buscar capacitação em ferramentas de Inteligência Artificial, metodologias ágeis, análise de dados e nos recursos digitais do cotidiano corporativo.
Já entre as chamadas soft skills, destacam-se a adaptabilidade, a facilidade para trabalhar de forma colaborativa, a inteligência emocional e uma comunicação clara.
Mais do que declarar o domínio de tecnologia no papel, o profissional maduro precisa demonstrar essa intimidade na prática. Isso significa citar cursos recentes, apresentar certificados obtidos e detalhar exemplos concretos de projetos anteriores nos quais utilizou novos softwares ou automações para otimizar processos internos e elevar a produtividade das equipes.
Postura
Paralelamente ao desenvolvimento de novas habilidades, reativar o networking surge como a principal porta de entrada para novas oportunidades. É fundamental restabelecer contato com antigos colegas de trabalho, participar ativamente de feiras setoriais e eventos de nicho, como o MaturiFest, e compartilhar artigos ou análises sobre sua área de atuação diretamente nas redes profissionais, fortalecendo a presença digital.
Por fim, todo esse processo exige preparação comportamental para o diálogo intergeracional, uma vez que é comum encarar processos seletivos conduzidos por recrutadores e gestores mais jovens. A postura ideal deve ser pautada no respeito mútuo e na colaboração horizontal.
A experiência acumulada ao longo da vida não deve ser empunhada como um argumento de autoridade rígido, mas sim oferecida como uma contribuição prática para o sucesso do time.
Ao demonstrar curiosidade intelectual e humildade para aprender com as novas gerações, o profissional de mais de 50 anos causa uma excelente impressão e consolida seu valor no mercado contemporâneo.
O mercado de trabalho atual é consideravelmente mais flexível do que há algumas décadas. Se a recolocação imediata em vagas tradicionais de carteira assinada estiver difícil, o profissional 50+ pode canalizar sua bagagem para outros formatos de geração de renda que valorizam o conhecimento consultivo:
Apoiar empresas de menor porte ou profissionais iniciantes utilizando o conhecimento acumulado ao longo da carreira.
Prestar serviços temporários e focados em metas específicas para empresas que precisam de soluções rápidas e especializadas, sem o custo de uma contratação fixa.
Abrir o próprio negócio ou atuar de forma autônoma, transformando paixões e competências técnicas em novos serviços e produtos.
"Chegar aos 50 anos no mercado de trabalho não significa estar próximo do fim da carreira. Significa ter acumulado repertório, maturidade e capacidade de gerar valor", conclui Lizi Rodrigues.
Fonte: Correio