10/10/2026 11h05
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A Organização das Nações Unidas (ONU) enfrenta uma crise financeira que já provocou a eliminação de mais de 10 mil postos de trabalho em apenas um ano e ameaça a continuidade de programas humanitários em diferentes regiões do mundo. A redução de recursos atinge principalmente iniciativas voltadas à assistência de refugiados, crianças e populações em situação de vulnerabilidade.
Entre 2024 e 2025, o número de postos de trabalho no sistema das Nações Unidas passou de 130.948 para 120.176, uma queda de aproximadamente 8%. Os dados constam de um relatório do Conselho de Chefes Executivos da organização, que reúne informações sobre os quadros de pessoal das agências e organismos vinculados à entidade.
O cenário é agravado pela redução das contribuições de países financiadores e pelo atraso em pagamentos obrigatórios. Os Estados Unidos, responsáveis pela maior parcela do orçamento regular da ONU, acumulam uma dívida bilionária e condicionam novos repasses à implementação de reformas na instituição.
Cortes atingem 21 organismos das Nações Unidas
Em 2025, a redução de pessoal afetou 21 dos 41 organismos e agências integrantes do sistema da ONU. Entre as instituições mais prejudicadas estão o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Para 2026, a organização também autorizou a extinção de aproximadamente 2,9 mil cargos adicionais. Como parte das medidas para reduzir despesas, foram implementados programas de desligamento voluntário e aposentadoria antecipada.
A manutenção de toda a estrutura das Nações Unidas custou US$ 64,3 bilhões, aproximadamente R$ 322 bilhões, em 2025. O montante representa uma redução de 2% em comparação com 2024.
Cerca de dois terços desses recursos foram direcionados a atividades humanitárias e projetos de desenvolvimento realizados nos países atendidos pela organização.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, já havia alertado, no fim de 2025, para a fragilidade das finanças da instituição.
O porta-voz de Guterres, Stéphane Dujarric, afirmou ao g1 que a situação se agravou com a diminuição expressiva das contribuições voluntárias dos Estados Unidos, responsáveis anteriormente por aproximadamente 45% do orçamento destinado à assistência humanitária. Países europeus também reduziram seus repasses.
Segundo Dujarric, as consequências incluem diminuição na distribuição de alimentos e vacinas, restrições ao acesso à educação e encerramento de programas voltados a refugiados.

Mais de 8 milhões de pessoas podem perder assistência
O Acnur está entre as agências que enfrentam as maiores dificuldades financeiras. Em 2025, a instituição estimou a necessidade de US$ 10,6 bilhões para atender quase 130 milhões de pessoas, mas conseguiu arrecadar menos de 40% do montante.
No ano anterior, a arrecadação havia correspondido a 48% dos recursos necessários para manter suas atividades.
Diante da redução das receitas, a agência diminuiu seu quadro de funcionários em um terço, fechou escritórios em 140 localidades e encerrou operações em 15 países.
A estimativa do Acnur é que 8,3 milhões de pessoas possam deixar de receber assistência essencial em 2026 em consequência dos cortes.
A restrição financeira já afeta serviços de proteção em países como Afeganistão, Síria e Etiópia. No Chade, mais de 230 mil crianças correm o risco de ficar sem atendimento de proteção infantil.
A situação permaneceu crítica ao longo de 2026. Até o fim de julho, o ACNUR havia recebido US$ 2,7 bilhões dos US$ 8,5 bilhões necessários para suas operações anuais, mesmo após uma redução de 20% no orçamento.
Outro obstáculo é a destinação dos recursos arrecadados. Mais da metade das contribuições recebidas possui utilização previamente determinada pelos doadores, o que limita a possibilidade de direcionar o dinheiro para outras necessidades emergenciais.
A agência defende a ampliação do financiamento e a flexibilização dos repasses para evitar novas restrições aos serviços humanitários.

Brasil também sofre impactos da crise
A redução de recursos internacionais já provoca consequências para o atendimento de refugiados no Brasil.
Segundo Davide Torzilli, representante do ACNUR no país, a instituição havia recebido, até o fim de agosto, somente 22% do orçamento necessário para suas atividades em 2026. Em 2025, os cortes atingiram 40% da força de trabalho do Acnur e das organizações parceiras financiadas pela agência no território brasileiro.
A falta de financiamento ameaça o atendimento a mais da metade dos refugiados que necessitam de assistência no país. Entre os serviços comprometidos estão o fornecimento de abrigo, alimentos e itens básicos de sobrevivência.
O cenário ocorre enquanto o Brasil registra a chegada de até 500 pessoas por dia em busca de proteção internacional. De acordo com Torzilli, a escassez financeira já fez com que alguns refugiados perdessem acesso a programas de assistência, enquanto outros passaram a receber atendimento mais restrito, conforme critérios de vulnerabilidade e prioridades de proteção.
Estados Unidos acumulam dívida bilionária com a ONU
Além da diminuição de doações voluntárias, as contas das Nações Unidas são pressionadas pelo atraso nas contribuições obrigatórias dos países-membros. Nos últimos dois anos, os pagamentos pendentes dessas contribuições somaram US$ 1,6 bilhão.
Os Estados Unidos aparecem entre os principais devedores, apesar de responderem pela maior participação individual no financiamento do orçamento regular da organização.
Em setembro de 2026, a ONU informou que o país acumulava US$ 1,3 bilhão, equivalente a R$ 6,4 bilhões, em contribuições anuais não pagas. O montante não incluía as obrigações financeiras relacionadas às missões de paz.
Naquele mesmo mês, os norte-americanos efetuaram pagamentos de US$ 725 milhões referentes ao orçamento regular e outros US$ 102 milhões destinados às operações de paz.
Os repasses ocorrem em meio às críticas do presidente Donald Trump à estrutura das Nações Unidas. O governo norte-americano defende mudanças na administração da entidade, incluindo medidas de redução de custos e revisão de suas atividades.
Um representante do Departamento de Estado dos Estados Unidos informou que novos pagamentos dependerão da comprovação de avanços nas reformas exigidas pelo país.
O governo também declarou que pretende impedir o direcionamento de recursos a organizações consideradas contrárias aos interesses norte-americanos ou à política externa de Trump.
Para Uriã Fancelli, mestre em Relações Internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, a estratégia representa uma forma de pressão política sobre a ONU.
Na avaliação do especialista, a administração Trump busca reduzir o tamanho e os gastos da organização, ao mesmo tempo em que procura enfraquecer sua atuação multilateral.
Fancelli também aponta que a manutenção de determinados pagamentos pode estar relacionada à tentativa de preservar o direito de voto dos Estados Unidos na Assembleia Geral.
Quanto cada país precisa contribuir?
O orçamento regular das Nações Unidas para 2026 foi fixado em US$ 3,45 bilhões, aproximadamente R$ 16 bilhões, uma redução de 7%. Diferentemente dos US$ 64,3 bilhões gastos em 2025 com todo o sistema das Nações Unidas, esse orçamento corresponde apenas às despesas do Secretariado, responsável pela administração da organização.
O financiamento é dividido entre os 193 países-membros, conforme critérios que consideram principalmente a capacidade econômica de cada nação. O cálculo leva em conta indicadores como renda nacional, renda por habitante e endividamento, além de ajustes específicos destinados aos países de menor renda.
A participação mínima estabelecida é de 0,001%, enquanto a contribuição máxima corresponde a 22%. Para os países classificados como menos desenvolvidos, existe um limite específico de 0,01%.
Os Estados Unidos ocupam a primeira posição, com aproximadamente 22% do orçamento regular. A China aparece em seguida, responsável por 20%. O governo chinês concluiu, em 1º de setembro, o pagamento dos US$ 641 milhões (R$ 3,1 bilhões) previstos para 2026.
O Brasil também quitou sua contribuição anual. O pagamento de US$ 44,8 milhões, equivalente a R$ 223 milhões, foi finalizado em 12 de março. A participação brasileira corresponde a 1,4% do orçamento.
Até 1º de outubro, 143 dos 193 países-membros haviam efetuado integralmente os pagamentos previstos para 2026. Outros 50 ainda apresentavam pendências, incluindo Estados Unidos, Bolívia, Chile, Equador, El Salvador, Irã, Síria e Venezuela.
Os valores não pagos representam quase 25% do total que deveria ser arrecadado pela organização por meio das contribuições obrigatórias neste ano.
Investimentos da ONU no Brasil cresceram 37%
Apesar da crise enfrentada pelo Acnur, o volume de recursos destinados separadamente a projetos das Nações Unidas no Brasil apresentou crescimento entre 2024 e 2025.
No ano passado, foram investidos US$ 213 milhões, cerca de R$ 1 bilhão, em iniciativas desenvolvidas no território brasileiro, um aumento de 37%. Ao todo, a ONU executou 338 iniciativas no país durante 2025. As ações envolveram serviços de saúde, atendimento a pessoas em situação de rua, apoio à agricultura familiar e projetos de enfrentamento à pobreza.
Segundo os dados da organização, os programas beneficiaram milhões de pessoas em diferentes regiões do Brasil. Parte dos investimentos foi viabilizada por contribuições do governo federal e de parceiros internacionais, além da colaboração com o setor privado.
Em 2025, o governo brasileiro destinou US$ 106,1 milhões a iniciativas relacionadas ao desenvolvimento sustentável e à execução da Agenda 2030, conjunto de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) adotados pelos países-membros da ONU.
Alemanha, Luxemburgo e Reino Unido também contribuíram com projetos desenvolvidos no território brasileiro. A União Europeia destinou US$ 1,3 milhão a essas iniciativas.
Outro aporte veio do Canadá, que disponibilizou aproximadamente R$ 59 milhões ao Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia.
Parte dos recursos canadenses já foi aplicada em iniciativas de proteção a crianças e adolescentes da região amazônica, com ações nas áreas de educação e saúde.
Fonte: A Tarde e g1