26/02/2026 10h58
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O Brasil gera cerca de 170 mil toneladas de resíduos têxteis por ano. Desse total, apenas 20% são recicladas, segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). É nesse cenário que a moda circular ganha relevância como alternativa ao modelo tradicional de produção e descarte.
Moda circular é um modelo de produção e consumo que busca prolongar ao máximo a vida útil de roupas, tecidos e materiais, reduzindo desperdício e impacto ambiental. Diferentemente do modelo linear (produção-uso-descarte), o sistema circular envolve reutilização, conserto, revenda, aluguel e uso de matérias-primas recicláveis na confecção de novas peças.
"No Brasil, uma grande quantidade de resíduos têxteis ainda acaba em aterros sanitários", afirma Nadja Pimentel Ramos da Silva, professora do Núcleo de Moda da Universidade Anhembi Morumbi. "Ao incentivar roupas mais duráveis e a reciclagem, a moda circular reduz o descarte prematuro."
Levantamento da Global Fashion Agenda mostra que a indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo, atrás apenas da indústria petrolífera.
Para Francisca Dantas Mendes, professora da Universidade de São Paulo, três fatores dificultam a expansão do modelo circular no país:
Impactos ambientais
Embora pareça inofensivo, o lixo têxtil gera diversos impactos. "Cada peça descartada representa mais recursos naturais extraídos e mais energia consumida", afirma Anny Tonet, gerente-adjunta de Inovação do Sebrae.
Entre os principais efeitos estão:
Quais práticas exemplificam a moda circular?
A moda circular começa no desenvolvimento do produto, com redução de desperdícios e escolha de matérias-primas recicladas ou renováveis.
"Isso inclui eliminar substâncias nocivas e aumentar a durabilidade das peças", afirma Fernando Pimentel, diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção.
No consumo, aluguel de roupas, brechós e upcycling — reaproveitamento criativo de resíduos — ajudam a prolongar o ciclo de vida das peças.
"A reciclagem deve ser considerada como última etapa, mantendo produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível", diz Luiza Lorenzetti, analista de Sustentabilidade e Inovação da Abit.
Como o consumidor pode participar
O consumidor é peça-chave para fortalecer o modelo no Brasil. Optar por comprar menos, priorizar brechós e cobrar transparência das marcas são atitudes que fazem diferença.
"A demanda do consumidor impulsiona a mudança", afirma Tonet.
Do lado industrial, o Brasil já possui recicladoras têxteis consolidadas, que transformam resíduos em fios reciclados e insumos para setores como o automotivo e o da construção civil, segundo a Abit. Também há iniciativas que utilizam garrafas PET recicladas na produção de novos materiais.
Por que a moda circular é estratégica para o Brasil?
A moda circular pode reduzir o lixo têxtil, preservar recursos naturais, gerar renda e fortalecer pequenos negócios. Para avançar, especialistas defendem mais políticas públicas de incentivo.
O Sebrae propõe que fabricantes e importadores assumam responsabilidade pelo ciclo completo dos produtos, incluindo coleta e destinação pós-consumo, além de incentivos fiscais para empresas que invistam em materiais reciclados, aluguel e reparo de roupas.
Luiza Lorenzetti também defende desoneração de máquinas e linhas de crédito para inovação. Já Francisca Mendes destaca a importância de capacitar pessoas em situação de vulnerabilidade para atuar na economia circular.
Fonte: Ecoa