27/08/2026 15h23
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O cenário de incertezas na economia combinado com juros elevados e endividamento recorde das famílias tem afetado a saúde financeira de empresas tradicionais de vários segmentos. O resultado é um número recorde de pedidos de recuperação judicial.
Gigantes em suas áreas, como a varejista Casas Bahia e a petroquímica Braskem entraram nessa lista, apresentando dívidas bilionárias neste mês, depois do primeiro semestre ter batido recorde de recuperações judiciais, conforme dados do Monitor RGF-Bizdoc, com 6.341 empresas em recuperação judicial.
Na segunda-feira (24), foi a vez da rede de fast-food Habib's entrar com o pedido no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que foi aprovado no dia seguinte. A consultoria norte-americana KPMG foi designada para administrar o processo do grupo. Procurada, a KPMG no Brasil informou que "por motivos de cláusulas de sigilo e regras da profissão, está impedida de se manifestar sobre casos envolvendo clientes ou ex-clientes da firma".
O Grupo Habib's informou, por meio de nota, que o pedido de recuperação judicial tem como objetivo "preservar a sustentabilidade e a evolução do negócio no longo prazo". "As operações do Grupo seguem funcionando normalmente, mantendo o atendimento aos clientes, a rotina e a qualidade de suas unidades", acrescentou a nota.
A rede Habib's tem quase 40 anos de atuação no mercado brasileiro e é controlada pelo grupo Gennius, dono das marcas Ragazzo e Tendall Grill. No pedido de recuperação judicial, o grupo declarou ter uma dívida de R$ 265,2 milhões. O ainda grupo atribuiu como um dos principais motivos para a crise financeira da empresa a perda no movimento das lojas físicas em shoppings e centros urbanos após a pandemia da covid-19, além da expansão do delivery.
Juros como vilão
Os juros elevados foram outro fator apontado no pedido do Habib's, assim como nos processos dos varejistas Casas Bahia e Marabraz. Atualmente, a taxa básica da economia (Selic) está em 14% ao ano, mas os juros reais (descontada a inflação) no Brasil lideram o ranking global e continuam em patamares restritivos, contribuindo para o processo de desaceleração da atividade econômica neste ano.
Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), reconhece que os juros elevados agravam o problema financeiro das empresas em um cenário de atividade econômica em desaceleração. "Mas o problema é anterior a isso. A inadimplência vem crescendo desde 2000, mesmo quando os juros eram baixos", alertou. Segundo ele, existem três fatores que estão espremendo as empresas: a inadimplência subindo, os spreads (diferença entre as taxas de captação e de empréstimos dos bancos, onde estão incluído os custos operacionais e a margem de lucro) e a demanda por crédito, que diminui devido à desaceleração da economia.
Carlos Akira Sato, especialista em governança e insolvência empresarial e cofundador da consultoria da Syscapital, destacou que existe um cenário de contradições no mercado atual para o movimento recorde nos pedidos de recuperação judicial (RJ). Além disso, lembrou que o RJ é um instrumento sofisticado e acessível para médias e grandes empresas apenas. "A recuperação judicial é um instrumento sofisticado. Tem um custo elevado, envolve assessores econômicos, advogados, mais voltado para médias e grandes empresas. Elas precisam demonstrar que o negócio ainda é viável para terem essa proteção em relação aos credores", explicou. Para ele, as empresas não devem culpar a covid-19 na atual conjuntura.
Fonte: Correio Braziliense