17/03/2026 11h34
Foto: Divulgação
O conflito armado entre os Estados Unidos, Israel e Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz estão gerando fortes perturbações no transporte marítimo, não apenas no fluxo de petróleo e gás, mas também no comércio global de produtos químicos. Essa rota, que liga o Golfo Pérsico aos mercados internacionais, é um elo estratégico para diversas cadeias de suprimentos industriais.
Segundo a Drewry, a rota é fundamental para o comércio global de produtos químicos, já que os países do Golfo Pérsico concentram cerca de 27 milhões de toneladas de exportações de produtos químicos. Embora o estreito represente cerca de 10% das exportações globais de produtos químicos, sua relevância é muito maior em segmentos específicos. Em particular, "mais de 20% das exportações mundiais de produtos químicos orgânicos passam por essa rota", alerta a consultoria.
Essa alta concentração implica que uma interrupção prolongada do trânsito poderia afetar significativamente os fluxos comerciais globais e a produção de produtos químicos derivados. A Drewry destaca que "uma interrupção prolongada no estreito poderia impactar significativamente os fluxos comerciais e restringir a produção de produtos químicos subsequentes que dependem desses suprimentos".
Alta dependência da Ásia
O impacto seria particularmente relevante na Ásia, principal destino dos produtos químicos orgânicos provenientes do Golfo. Entre as regiões importadoras, o Nordeste Asiático depende de 26% desses suprimentos, o Sul da Ásia de 38%, o Sudeste Asiático de 16% e a Europa de 11%.
A Índia e a China surgem como os mercados mais expostos. Segundo a Drewry, "só o Estreito de Ormuz responde por cerca de 35% das importações de produtos químicos orgânicos da Índia e cerca de 30% no caso da China".
Em relação a produtos específicos, o trânsito por esta rota é particularmente relevante para o metanol, o etilenoglicol, o estireno e os xilenos. O relatório destaca que "o fornecimento através do Estreito de Ormuz é especialmente crítico para o metanol (31%), o etilenoglicol (53%), o estireno (34%) e os xilenos (10%)" no comércio global de produtos químicos orgânicos.
A dependência da Índia ilustra a magnitude do fenômeno. O país importa do Golfo Pérsico cerca de 1,3 milhão de toneladas de metanol (42% do total de suas importações), cerca de 1 milhão de toneladas de etilenoglicol (78%) e aproximadamente 0,8 milhão de toneladas de estireno (70%).
Impacto na indústria petroquímica
Além do comércio direto de produtos químicos, o bloqueio também afeta o fornecimento de matérias-primas essenciais para a indústria petroquímica. A Drewry alerta que a interrupção dos embarques de nafta, GLP (propano e butano) e etileno do Golfo Pérsico pode causar escassez de insumos para a produção. A consultoria destaca que "uma possível interrupção dos embarques de nafta, GLP e etileno geraria déficits significativos de matérias-primas, pressionando os produtores petroquímicos".
A nafta é particularmente crítica para as unidades de craqueamento petroquímico. O trânsito pelo Estreito de Ormuz representa cerca de 24% do fornecimento global desse insumo, portanto, uma interrupção prolongada poderia afetar diretamente as taxas de operação das plantas petroquímicas, especialmente na Ásia.
Consequências para navios-tanque químicos
Em termos de transporte marítimo, a Drewry estima que o fechamento do estreito poderia interromper cerca de 12% do comércio global de produtos químicos e óleos vegetais, considerando os fluxos em ambas as direções.
Numa primeira fase, a interrupção do fornecimento proveniente do Golfo Pérsico obrigaria os compradores a procurar fontes alternativas, o que poderia gerar o reposicionamento de navios e uma redução temporária da disponibilidade em algumas rotas.
No entanto, se a interrupção se prolongar, o efeito poderá ser revertido. A Drewry alerta que "se a interrupção das exportações do Golfo Pérsico persistir, a procura global por capacidade de navios-tanque para produtos químicos acabará por diminuir, exercendo pressão descendente sobre os preços dos fretes".
O impacto também variaria dependendo do tipo de embarcação. Os navios-tanque para produtos químicos revestidos seriam os mais afetados devido à queda no comércio de produtos químicos orgânicos, enquanto as embarcações de aço inoxidável enfrentariam um impacto mais moderado, visto que o Estreito de Ormuz representa menos de 4% do comércio mundial de produtos químicos inorgânicos.
Abiquim descarta desabastecimento no Brasil
No Brasil, porém, não há evidências de risco imediato de desabastecimento de produtos químicos, segundo avaliação da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
De acordo com a entidade, a oferta internacional de produtos químicos permanece ampla, enquanto a indústria química brasileira opera com cerca de 40% de capacidade produtiva ociosa, o que permite responder rapidamente a eventuais oscilações do mercado internacional.
Segundo o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, os principais efeitos do conflito ocorrem de forma indireta. “O conflito pressiona custos globais relevantes, especialmente em energia e fertilizantes. No caso dos produtos químicos, porém, o Brasil dispõe de capacidade industrial suficiente para preservar o abastecimento do mercado”, afirmou.
Fonte: Mundo Marítimo