Utilizamos cookies de terceiros para fins analíticos e para lhe mostrar publicidade personalizada com base num perfil elaborado a partir dos seus hábitos de navegação. Pode obter mais informação e configurar suas preferências AQUI.

Economia

Exportações do Brasil aos EUA crescem 31,9% em setembro

Apesar da reação mensal, vendas brasileiras ao mercado americano acumulam queda de 6,5% entre janeiro e setembro de 2026

13/10/2026 07h10

Foto: Divulgação

O comércio exterior entre Brasil e Estados Unidos movimentou US$ 59,3 bilhões nos nove primeiros meses de 2026, uma redução de aproximadamente 6,8% em relação ao mesmo período do ano passado. As exportações brasileiras para o mercado americano somaram US$ 27,46 bilhões, queda de 6,5%, enquanto as importações alcançaram US$ 31,79 bilhões, retração de 7,1%. O resultado manteve a balança comercial desfavorável ao Brasil, com déficit de US$ 4,33 bilhões.

Os números constam do Monitor do Comércio Brasil–EUA, divulgado pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), com base nas estatísticas oficiais do Comex Stat. O levantamento mostra que as medidas tarifárias americanas continuam afetando o desempenho de setores exportadores brasileiros, especialmente aqueles submetidos às sobretaxas mais elevadas.

O mês de setembro, entretanto, apresentou uma recuperação. As exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceram 31,9% em relação ao mesmo mês de 2025, alcançando US$ 3,52 bilhões. A expansão ocorreu tanto entre produtos sujeitos às tarifas adicionais quanto entre mercadorias não afetadas pelas medidas. Ainda assim, no acumulado de janeiro a setembro, as vendas brasileiras permaneceram no menor patamar para o período desde 2023.

A recuperação mensal ocorre sobre uma base já impactada pelas tarifas. Em agosto de 2025, os Estados Unidos haviam implementado tarifas adicionais de 40% e 50% sobre produtos brasileiros, provocando uma retração das vendas nos meses seguintes. Assim, parte do crescimento registrado em setembro de 2026 reflete a comparação com um período de exportações já reduzidas.

Além desse efeito, os preços contribuíram para o resultado. Em setembro, o volume físico exportado cresceu apenas 3,1%, enquanto o preço médio das mercadorias aumentou 28%. No acumulado dos nove meses, porém, a quantidade enviada aos Estados Unidos caiu 17,9%, apesar da elevação de 13,8% nos preços médios. Isso indica que a retração foi mais intensa em volume do que em valor.

A redução do déficit brasileiro não decorreu de uma expansão das exportações, mas da queda mais acentuada das importações. Enquanto o Brasil vendeu aproximadamente US$ 1,91 bilhão a menos aos Estados Unidos, as compras de produtos americanos diminuíram cerca de US$ 2,4 bilhões.

Apesar da retração, os Estados Unidos continuam sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil. O país ocupa a segunda posição entre os destinos das exportações brasileiras, atrás da China, e também é o segundo maior fornecedor de produtos importados pelo Brasil. Sua importância é particularmente expressiva para a indústria de transformação, setor no qual permanece como o maior mercado externo do país.

Indústria brasileira registra primeira queda nas vendas desde 2020

A indústria de transformação concentrou 84,4% das exportações brasileiras aos Estados Unidos entre janeiro e setembro, com vendas de US$ 23,1 bilhões. O montante representa uma retração de 1,2% em relação ao mesmo período de 2025 e marca a primeira queda das exportações industriais ao mercado americano desde 2020, ano da pandemia.

O desempenho contrasta com o das exportações industriais brasileiras para o restante do mundo, que cresceram 6,3%. Mesmo com a redução, os Estados Unidos receberam 15,7% de todas as exportações brasileiras da indústria de transformação, superando a União Europeia, com US$ 20,3 bilhões, a China, com US$ 15,6 bilhões, e o Mercosul, com US$ 15,5 bilhões.

A indústria extrativa apresentou um recuo ainda mais expressivo, de 32%, reduzindo suas vendas aos Estados Unidos para US$ 2,8 bilhões. O principal fator identificado nos dados foi a queda das exportações de petróleo bruto, que diminuíram 35,8%. No mesmo período, as vendas do setor extrativo brasileiro para os demais mercados avançaram 21,2%.

A agropecuária também registrou retração, de 17,8%, com exportações de aproximadamente US$ 1,4 bilhão ao mercado americano. Para o restante do mundo, entretanto, as exportações agropecuárias cresceram 8,9%.

Essas diferenças indicam que a perda de desempenho no mercado americano não acompanhou a trajetória geral do comércio exterior brasileiro. As tarifas adicionais são um fator relevante, mas não explicam isoladamente todas as variações. Preços internacionais, demanda por produtos específicos e composição dos embarques também influenciam os resultados.

Carne bovina e aeronaves lideram crescimento

O comportamento dos principais produtos da pauta exportadora revela diferenças importantes entre os setores. Nos nove primeiros meses do ano, as exportações de carne bovina para os Estados Unidos cresceram 82,9%, alcançando US$ 1,72 bilhão. Em setembro, o avanço foi de 524,3%, com embarques de US$ 263,5 milhões.

O crescimento expressivo do último mês também está relacionado à baixa base de comparação de setembro de 2025, quando as tarifas americanas já haviam provocado uma redução das vendas. No acumulado do ano, o aumento das receitas com carne bovina foi acompanhado pela expansão de 55,6% na quantidade exportada e de 17,5% no preço médio.

As aeronaves também tiveram desempenho positivo. As vendas somaram US$ 2,24 bilhões entre janeiro e setembro, crescimento de 24,4%. O resultado foi acompanhado por um aumento de 21,2% no volume exportado, mostrando expansão efetiva dos embarques, além da valorização de 2,6% nos preços médios.

Outro destaque foram as máquinas de energia elétrica, cujas exportações avançaram 32,5%, para US$ 691,7 milhões. Já os equipamentos de engenharia civil tiveram crescimento de 14,1%, chegando a US$ 1,14 bilhão.

Em sentido contrário, as vendas de petróleo bruto recuaram 35,8%, para US$ 2,49 bilhões, enquanto as de café não torrado diminuíram 20%, totalizando US$ 1,21 bilhão. No caso do petróleo, a quantidade exportada caiu 42,4%, apesar da elevação de 11,5% no preço médio.

Sobretaxas

A política tarifária americana segue como um dos principais fatores de pressão sobre as exportações brasileiras. Segundo o levantamento da Amcham, as vendas de produtos sujeitos a sobretaxas somaram US$ 12,5 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, retração de 8,1% em relação ao mesmo período de 2025.

O resultado foi mais negativo entre os produtos submetidos às alíquotas adicionais de 25% a 37,5%. As exportações dessas mercadorias diminuíram 25,4%, passando de US$ 5,5 bilhões para US$ 4,1 bilhões. A redução equivale a aproximadamente US$ 1,4 bilhão em vendas.

O monitor considera a estrutura tarifária resultante das medidas adotadas em julho de 2026, incluindo investigações conduzidas no âmbito da Seção 301 e sobretaxas da Seção 232 da legislação comercial americana. A classificação não representa uma alíquota única para todas as mercadorias, mas diferentes regimes aplicáveis a grupos de produtos.

Entre os segmentos afetados, a madeira de coníferas apresentou uma das maiores perdas proporcionais. As exportações recuaram 50,6%, totalizando US$ 103,8 milhões. Os granitos trabalhados registraram queda de 34,1%, para US$ 93,9 milhões, enquanto as vendas de portas diminuíram 29,3%, alcançando US$ 146,8 milhões.

O sebo bovino, importante matéria-prima para aplicações industriais, também teve redução expressiva. As exportações caíram 33,4%, para US$ 275 milhões. O contraste é significativo porque as vendas brasileiras desse produto para outros mercados cresceram 443,4%, segundo a Amcham.

A diferença sugere que os exportadores encontraram oportunidades comerciais em outros destinos, embora o relatório não permita estabelecer quanto da redução das vendas aos Estados Unidos foi efetivamente compensado em cada mercado.

Nos produtos sujeitos às tarifas da Seção 232, entretanto, o comportamento não foi uniforme. O grupo de aço e alumínio registrou crescimento de 8,7% nas exportações, totalizando US$ 5,84 bilhões. O avanço mostra que a incidência de uma sobretaxa não resulta necessariamente em queda imediata de faturamento, especialmente quando existem mudanças de preços e demanda.

Combustíveis ampliam participação

Do lado das importações, o Brasil comprou US$ 31,79 bilhões em produtos americanos entre janeiro e setembro de 2026, redução de 7,1%. A queda ocorreu nos três principais setores da economia: indústria de transformação, indústria extrativa e agropecuária.

Mesmo com a retração, a indústria de transformação respondeu por 91,9% de tudo o que o Brasil importou dos Estados Unidos, com aproximadamente US$ 29,1 bilhões. Essa composição mostra a importância do mercado americano como fornecedor de produtos industriais para empresas e consumidores brasileiros.

Os combustíveis ocuparam a primeira posição na pauta importadora, com US$ 6,86 bilhões em compras, crescimento de 68,5% em relação ao mesmo período de 2025. Em setembro, o aumento chegou a 108,5%, com importações de US$ 1,62 bilhão.

A expansão das compras de combustíveis foi o principal fator que sustentou o crescimento das importações em setembro, quando o total adquirido dos Estados Unidos avançou 2,1%, apesar da redução de 4,6% na quantidade física agregada.

As compras de produtos farmacêuticos também ganharam espaço. A categoria de outros medicamentos cresceu 52,8%, alcançando US$ 1,68 bilhão, enquanto outro grupo classificado como produtos farmacêuticos avançou 11,4%, para US$ 1,07 bilhão.

Esse desempenho reforça a presença dos fornecedores americanos em segmentos de maior especialização industrial, embora o relatório não detalhe quais medicamentos, empresas ou contratos explicam a expansão.

Outro item com crescimento relevante foram as máquinas de processamento de dados, cujas importações chegaram a US$ 594,5 milhões, aumento de 22,6%. No mesmo período, as compras de adubos avançaram 12,1%, somando US$ 589,5 milhões.

Máquinas e equipamentos

Uma das variações mais relevantes na pauta de importações foi a redução das compras de motores e máquinas não elétricos. O valor importado caiu 77%, para US$ 1,3 bilhão, acompanhado por uma diminuição de 74,3% no volume físico.

A queda teve contribuição importante para a redução das importações brasileiras provenientes dos Estados Unidos. Segundo o levantamento, as compras dessa categoria também recuaram nos demais mercados, o que indica que o movimento não ficou restrito aos fornecedores americanos.

Já as importações de aeronaves diminuíram 14,4%, para US$ 1,38 bilhão. Também apresentaram retração as compras de petróleo bruto (-15,6%) e instrumentos de medição (-13,6%).

As razões específicas para essas reduções não são discriminadas pelo monitor. No caso de bens industriais e equipamentos de alto valor, mudanças no calendário de entregas e de investimentos podem afetar as comparações anuais. Entretanto, seria necessário examinar contratos e dados setoriais para determinar quais fatores explicaram cada queda.

Nordeste aparece entre os principais destinos das importações americanas

O levantamento também revela a importância de dois estados nordestinos no comércio com os Estados Unidos. Bahia e Maranhão aparecem entre os cinco maiores importadores brasileiros de produtos americanos nos nove primeiros meses de 2026.

A Bahia ocupou a terceira posição nacional, com compras de aproximadamente US$ 2 bilhões, correspondentes a 6,3% das importações brasileiras provenientes dos Estados Unidos. O valor representa uma redução de 6,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Os principais produtos importados pela Bahia foram combustíveis, petróleo e químicos inorgânicos. Essa composição evidencia o peso das cadeias energética e química nas relações comerciais do estado com fornecedores americanos.

O Maranhão apareceu na quarta posição, também com aproximadamente US$ 2 bilhões em importações, equivalentes a 6,2% do total nacional. Ao contrário da Bahia, o estado registrou crescimento de 28,7% nas compras provenientes dos Estados Unidos.

A pauta maranhense foi liderada por combustíveis, seguida por químicos inorgânicos e produtos residuais de petróleo. O avanço das importações destaca a relevância das operações ligadas aos setores de energia e insumos industriais, embora os dados não identifiquem as empresas responsáveis por essas compras.

São Paulo liderou o ranking nacional, com US$ 12,2 bilhões em importações e crescimento de 15%. O Rio de Janeiro ficou em segundo lugar, com US$ 2,6 bilhões, mas apresentou forte retração, de 63,9%. Minas Gerais ocupou a quinta posição, com US$ 1,9 bilhão e expansão de 5%.

A distribuição regional indica que os fluxos comerciais com os Estados Unidos não estão concentrados apenas em bens de consumo. Combustíveis, insumos industriais, medicamentos e equipamentos compõem parte significativa das operações, com efeitos sobre diferentes cadeias produtivas brasileiras.

Recuperação de setembro

O desempenho de setembro representa uma mudança na trajetória mensal das exportações brasileiras, mas não elimina as dificuldades acumuladas desde a entrada em vigor das medidas tarifárias americanas.

As exportações de produtos submetidos às sobretaxas cresceram 28,1% em setembro, enquanto as vendas de mercadorias sem tarifas adicionais avançaram 34,8%. Entre os itens com alíquotas de 25% a 37,5%, a expansão chegou a 27,8%.

Ainda assim, considerando os 12 meses encerrados em setembro, as exportações dos produtos abrangidos pelas sobretaxas somaram US$ 15,8 bilhões, queda de 12,6% em relação aos 12 meses anteriores, quando haviam alcançado US$ 18,1 bilhões.

A diferença entre a recuperação mensal e o resultado acumulado mostra que ainda não há evidências suficientes de uma recomposição integral do comércio bilateral. A evolução dos volumes exportados será especialmente importante para avaliar a capacidade de recuperação das empresas brasileiras.

Os próximos resultados deverão indicar se o crescimento de setembro terá continuidade ou se a recuperação reflete principalmente a comparação com um período de embarques reduzidos em 2025. Até setembro de 2026, o quadro permanece caracterizado por redução do comércio bilateral, menor volume exportado e efeitos desiguais das barreiras comerciais sobre os setores produtivos.

Fonte: Movimento Econômico