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Sustentabilidade

Embrapa e MDS lançam projeto “Sistemas alimentares circulares”

A iniciativa busca combater o desperdício e fortalecer políticas públicas

12/09/2026 08h29

Foto: Divulgação

A Embrapa Alimentos e Territórios, com financiamento do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), lança um projeto de 24 meses para transformar os sistemas alimentares circulares nas cidades brasileiras. A iniciativa busca entender o comportamento das famílias e apoiar governos locais na criação de soluções eficazes para a aquisição, consumo e redução do desperdício de alimentos, contribuindo diretamente para políticas públicas de segurança alimentar.

Liderado pelo analista de Pesquisa e Desenvolvimento Gustavo Porpino, com participação da pesquisadora Flávia Galvão Cândido como colíder, o projeto articula pesquisa, capacitação de gestores públicos e mobilização de instituições parceiras. A iniciativa pretende gerar evidências para apoiar a Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional nas Cidades – Alimenta Cidades e a II Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos no Brasil (Estratégia PDA), além de contribuir diretamente com programas e planos desenvolvidos pelos municípios.

“A Embrapa tem colaborado com a Estratégia Alimenta Cidades e a Estratégia PDA desde a fase de planejamento e, com este novo projeto, fortalecemos nossa capacidade de contribuir com a implementação das ações em parceria com governos locais e outras instituições. As pesquisas irão gerar dados empíricos relevantes para o aprimoramento das políticas públicas e a frente de capacitação irá incentivar cidades e parceiros a colocar em prática ações concretas para o fortalecimento de sistemas alimentares urbanos sustentáveis”, afirma Gustavo Porpino, representante da Embrapa no Comitê Gestor da Estratégia PDA e líder do projeto.

Como a pesquisa auxiliará os municípios?

O projeto está organizado em quatro frentes complementares. A primeira vai investigar como diferentes barreiras influenciam as decisões de compra e o consumo de alimentos. A segunda analisará fatores comportamentais, culturais e ambientais relacionados ao desperdício de alimentos nas residências. A terceira apoiará governos locais na elaboração e implementação de planos para redução de perdas e desperdício e melhoria do ambiente alimentar. A quarta será dedicada à mobilização de atores e à comunicação dos resultados para gestores públicos e sociedade.

As duas pesquisas terão abrangência nacional e buscarão avançar em questões ainda pouco conhecidas, com o apoio de ferramentas de inteligência artificial para estimar o consumo e o desperdício de alimentos. Uma delas vai investigar até que ponto barreiras como preço, acesso, disponibilidade, falta de tempo, praticidade, hábitos, preferências familiares, ambiente alimentar e publicidade interferem nas escolhas dos consumidores. A outra buscará identificar fatores que contribuem para o desperdício de alimentos nas residências brasileiras e gerar informações capazes de orientar políticas e ações de prevenção.

“Vivemos um cenário em que o Brasil volta a sair do Mapa da Fome, mas enfrenta um desafio ainda mais complexo para as políticas alimentares: fome, elevado consumo de ultraprocessados e desperdício de alimentos coexistem e afetam especialmente populações em situação de vulnerabilidade social”, explica Flávia Galvão Cândido, pesquisadora e colíder do projeto.

Pesquisa do Pacto Contra a Fome e do Instituto PENSI mostrou que, embora o conhecimento sobre alimentação saudável esteja amplamente disseminado entre diferentes classes sociais, sua adoção no cotidiano é condicionada por diversas barreiras. Ao mesmo tempo, parte dos alimentos adquiridos não chega a ser efetivamente consumida, seja por problemas de planejamento, armazenamento, preparo, aceitação ou conservação.

“Nossa pesquisa pretende avançar da identificação dessas barreiras para a quantificação da sua magnitude e importância relativa, buscando compreender também os fatores associados ao desperdício e identificar aqueles que são potencialmente modificáveis por políticas públicas”, complementa Flávia.

Da pesquisa à ação local para o cidadão

Os resultados terão aplicação prática nas cidades. Cinco municípios participantes da Estratégia Alimenta Cidades receberão capacitações e apoio para implementar ações locais voltadas à melhoria do ambiente alimentar e à redução do desperdício. A metodologia das capacitações e dos planos será construída em conjunto com as gestões municipais, levando em consideração as especificidades de cada território.

Para Priscila Bocchi, do MDS, o protagonismo dos municípios é fundamental nesse processo. “O desafio de construir sistemas alimentares mais sustentáveis, resilientes e inclusivos passa necessariamente pelo nível local. É nas cidades que a demanda por alimentos se concentra, que o desperdício se materializa em grande escala, que as desigualdades no acesso à alimentação se tornam mais visíveis e que surgem oportunidades concretas para reconectar os sistemas alimentares ao planejamento territorial”, afirma.

Ela destaca que a parceria entre o MDS e a Embrapa fortalece a Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos no Brasil, que tem entre suas ações o estímulo a políticas públicas municipais nessa área.

“Para a redução de perdas e desperdício de alimentos, é necessária uma transição para sistemas alimentares mais sustentáveis e saudáveis, que implica o fomento a circuitos curtos de produção e abastecimento, acesso a alimentos saudáveis, agricultura urbana e periurbana, ampliação da doação de alimentos saudáveis para os bancos de alimentos e gestão correta de resíduos orgânicos, incentivando a compostagem e a biodigestão”, explica Priscila.

Governança para assegurar a continuidade das ações

Outro componente do projeto busca ampliar as possibilidades de continuidade das iniciativas para além de uma determinada gestão. A proposta é incentivar os municípios a institucionalizar as ações, incluindo-as em Planos Plurianuais (PPA) ou legislações locais, além de mobilizar conselhos de participação social para contribuir com sua continuidade.

Segundo Priscila, o projeto também reforça a atuação territorial prevista na Estratégia Alimenta Cidades. “A Estratégia Alimenta Cidades veio para consolidar e reforçar o apoio aos territórios como lócus da transformação social e da construção de sistemas alimentares mais justos e sustentáveis. O projeto da Embrapa irá reforçar ações de nível local que podem ser desenvolvidas para conduzir a esses sistemas mais justos, entre elas o apoio aos municípios para a construção de planos e estratégias locais para a redução de perdas e desperdício de alimentos.”