07/07/2026 11h27
Foto: Tânia Rêgo - Agência Brasil
O transporte rodoviário interestadual de passageiros enfrenta um déficit de aproximadamente 30% de motoristas em todo o país. O cenário tem levado empresas e entidades do setor a discutirem medidas para atrair novos profissionais e entender as mudanças no perfil da categoria.
Segundo a presidente da Abrati (Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros), Letícia Pineschi, a escassez de mão de obra é resultado de uma combinação de fatores que transformaram a profissão nos últimos anos.
Entre eles está a mudança no comportamento dos trabalhadores, que demonstram menor interesse em atividades que exigem viagens longas e pernoites fora de casa. "O motorista não está muito interessado em dormir longe de casa", afirmou a executiva.
De acordo com ela, muitos profissionais migraram para ocupações que permitem retornar diariamente para suas residências, como o serviço de transporte por aplicativo, táxi ou transporte coletivo.
Outro motivo apontado por Letícia está relacionada às novas competências exigidas pelo setor. Além da condução do veículo, os motoristas passaram a desempenhar funções ligadas ao atendimento ao público e ao uso de tecnologias embarcadas.
Por isso, segundo ela, alguns motoristas decidiram prestar serviços de transporte de cargas, atraídos por remunerações semelhantes e sem a necessidade de interação com passageiros.
Para tentar reverter esse quadro, a Abrati e a CNTTT (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres) estão estruturando uma pesquisa nacional para identificar o perfil atual dos motoristas e compreender quais fatores poderiam tornar a profissão mais atrativa. O levantamento também pretende mapear demandas da categoria e auxiliar na formulação de políticas de recrutamento e retenção de trabalhadores.
Outro desafio enfrentado pelo setor é o envelhecimento da mão de obra. Atualmente, a maior parte dos motoristas rodoviários está na faixa entre 40 e 50 anos. Embora isso represente uma oportunidade para profissionais mais experientes, também evidencia a dificuldade de atrair trabalhadores mais jovens para a atividade.
Além disso, parte significativa desses profissionais está próxima da aposentadoria, o que pode ampliar ainda mais o déficit de mão de obra caso não haja renovação da categoria mesmo que com motoristas na mesma faixa etária.
Outro obstáculo do transporte rodoviário de passageiros é a participação feminina, que é “ínfima”. Segundo Letícia, um dos principais motivos de recusa a essa profissão é justamente a necessidade de passar noites fora de casa durante as viagens interestaduais. A executiva afirma que essa realidade pesa especialmente sobre as mulheres devido à divisão tradicional das responsabilidades familiares.
Apesar disso, programas de capacitação do Sest Senat voltados para a formação de motoristas mulheres têm ampliado gradualmente a presença feminina no transporte coletivo e de cargas.
Saúde e segurança
Nos últimos anos, as empresas também elevaram as exigências relacionadas à saúde e à segurança dos profissionais e dos passageiros.
Atualmente, são realizados exames periódicos, testes de bafômetro antes das viagens e monitoramento de fatores que possam comprometer a condução dos veículos, como consumo de álcool, drogas e outros vícios. Algumas empresas passaram ainda a desenvolver ações voltadas para prevenção de dependência em apostas esportivas e jogos online.
Programas de higiene do sono também ganharam espaço no setor. Motoristas recebem acompanhamento médico, avaliações sobre a qualidade do descanso e tratamentos para distúrbios como apneia.
Em alguns pontos de parada, empresas oferecem salas de estimulação com iluminação intensa, alimentação balanceada e bicicletas ergométricas para reduzir o risco de fadiga durante as viagens de longa distância, tendo em vista o alto volume de viagens noturnas.
Fonte: CNN Brasil