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Transporte Aquaviário

Crises climáticas mudam engenharia das hidrovias brasileiras

Secas históricas no Paraguai e no Tapajós tornam a dragagem permanente prioridade para manter a navegação

04/08/2026 07h31

Foto: Divulgação

As secas históricas registradas nos últimos anos mudaram a forma como operadores e especialistas enxergam as hidrovias brasileiras. Rios que até pouco tempo navegavam sem necessidade de intervenções permanentes passaram a exigir dragagem contínua para garantir a operação durante todo o ano, transformando a manutenção da infraestrutura hidroviária em um dos principais desafios da competitividade logística do país. A avaliação foi feita por Mariana Pescatore, diretora de Relações Institucionais da Hidrovias do Brasil, durante o Seminário LIDE Transporte, realizado em São Paulo.

Segundo a executiva, os episódios extremos registrados em 2023 e 2024 alteraram definitivamente o planejamento das operações hidroviárias brasileiras. “Até pouco tempo não precisávamos pensar em dragagem permanente no Rio Paraguai ou no Tapajós. Hoje essa realidade mudou”, afirmou.

Nova realidade para os rios

A mudança ficou evidente durante as secas que atingiram as principais hidrovias brasileiras. No Rio Paraguai, a navegação passou a enfrentar onze pontos críticos que exigiram intervenções para garantir a passagem das embarcações. Já no Tapajós, foram identificados sete trechos com restrições, onde aproximadamente 1 milhão de metros cúbicos de sedimentos precisaram ser removidos para restabelecer as condições de navegação.

Na avaliação da executiva, esses episódios deixam de ser eventos isolados para se tornarem parte de um novo padrão climático que exige uma política permanente de manutenção das hidrovias. Segundo Mariana, países com tradição no transporte hidroviário já tratam a dragagem como atividade contínua de gestão da infraestrutura. Ela citou como exemplos o Rio Mississippi, nos Estados Unidos, o Rio Reno, na Europa, e as principais hidrovias chinesas, onde a manutenção permanente da profundidade dos canais é considerada parte da operação normal do sistema logístico.

“O Brasil também precisará incorporar essa lógica se quiser ampliar a participação das hidrovias na matriz de transporte”, afirmou. Na avaliação da executiva, esse novo cenário reforça a necessidade de modelos de concessão capazes de garantir investimentos permanentes em manutenção, reduzindo o tempo de resposta diante de eventos extremos e aumentando a previsibilidade das operações.

Competitividade em jogo

Além da segurança da navegação, Mariana Pescatore destacou o impacto econômico das limitações da infraestrutura hidroviária. Segundo ela, transportar soja do Centro-Oeste brasileiro até a China custa atualmente cerca de US$ 169 por tonelada, enquanto o mesmo percurso logístico custa aproximadamente US$ 80 nos Estados Unidos e US$ 88 na Argentina.

Para ela, a diferença evidencia o potencial de redução dos custos logísticos por meio da ampliação da participação das hidrovias e da melhoria das condições de navegação.

Segundo Mariana, o debate sobre hidrovias deixou de estar restrito à ampliação da infraestrutura física. “O desafio agora é garantir que os rios permaneçam navegáveis durante todo o ano, mesmo diante de eventos climáticos extremos”, afirmou.

Na avaliação da executiva, a adaptação das hidrovias às mudanças climáticas será determinante para ampliar a competitividade do agronegócio brasileiro e reduzir o custo do transporte de cargas de longa distância.

Fonte: Agência Transporte Moderno