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Transporte Aéreo

‘Carro voador’ chegará em São Paulo no fim de 2027

Serviço será operado pela Revo, que tem um contrato de US$ 250 milhões por 50 aeronaves da Eve Air Mobility

17/01/2026 10h47

Foto: Eve - Divulgação

Até o fim do ano de 2027 será possível dar um passeio de ‘carro voador’ pelos céus da capital paulista – e solicitar esse serviço assim como se pede um Uber hoje em dia. Isso, dado que os eVTOLs (Veículos de Decolagem e Pouso Vertical Elétrico, em tradução livre) da Eve Air Mobility (subsidiária da Embraer) serão operados pela Revo, uma companhia que já atua em São Paulo fretando voos de helicóptero.

Atualmente um voo de helicóptero da Revo que vai da Avenida Faria Lima, coração financeiro do Brasil, em São Paulo, até o Aeroporto de Guarulhos, custa cerca de R$ 2,7 mil – preço que contempla o voo em si, que demora pouco menos de 10 minutos, e também o serviço de transfer terrestre com motorista particular e outras comodidades.

Inicialmente, quando os eVTOLs passarem a serem operados pela empresa, o preço será o mesmo. Isso ocorre por conta de ser uma novidade e a empresa ainda ‘medir a temperatura’ sobre a demanda e como funcionará o mercado.

Entretanto, essa cifra deve cair até 30% ao longo dos anos, segundo o CEO da Revo, João Welsh.

“Não sabemos muitos detalhes ao certo sobre a precificação, mas olhando para um horizonte de cinco anos – e que pode ser mais rápido do que isso – devemos baratear de 20% a 30%. Está tudo no power point ainda, é preciso voar primeiro. O tempo de trajeto é igual a de um helicóptero, de 8 a 9 minutos [da Faria Lima até GRU], mas temos melhorias de utilização do espaço aéreo”, conta o executivo.

O custo operacional do ‘carro voador’ é mais baixo do que seus pares e, por conta disso, no médio e longo prazo o serviço pode ter uma dinâmica de preços ainda diferente e, segundo Welsh, ser ofertado para ‘uma gama de clientes ainda maior’.

“No início, estas coisas são sempre para um público mais elevado em termos de renda, como todas as transformações que vimos no transporte. Quando chegou o avião, era só para as elites, os barcos no início também eram assim. A tendência é esta, mas com o tempo existe um efeito mais democrático do transporte. É isso que esperamos que a tecnologia permita.”

O eVTOL tem capacidade de levar quatro passageiros (além do piloto), tem emissão de carbono zero e, para além disso, tem um benefício para quem não deve usufruir do serviço e apenas verá a aeronave no céu de São Paulo.

“Há um fator imediato que é o fator ambiental e de conforto. Esse fator tem um impacto para o cliente que voa, mas também um impacto colateral para as pessoas que vivem na cidade. Hoje São Paulo é uma cidade muito impactada pelo movimento aéreo de aviões e helicópteros. Quem mora em São Paulo já se habituou ao ruído, mas quem chega de fora nota isso logo que chega”, explica João Welsh.

“No dia que começarmos a ter veículos mais silenciosos, com menos emissão de gases, não são só os passageiros que vão beneficiar, mas também a cidade. Acho que isso é um ponto bastante importante na introdução do eVTOL”, completa.

Quanto custará o ‘carro voador’ da Eve Air Mobility

O contrato da Revo com a Eve é da cifra de US$ 250 milhões, pela aquisição de 50 aeronaves. O valor, entretanto, não será pago à vista ou em uma só parcela. O investimento será faseado, e tanto o dinheiro pago quanto a remessa de aeronaves serão fracionados.

“Não podemos dar muitos detalhes sobre o contrato, mas o que eu posso dizer é que será uma entrega de aeronaves faseada. Não vamos receber 50 no primeiro dia, e isso obviamente está ligado com o investimento. Existe uma ideia de receber primeiro 2 aeronaves, em um primeiro passo, depois mais 2, mais 3, mais 3 e por aí vai”, conta Welsh.

A decisão de investimento ‘não foi fácil’ justamente por representar um aporte substancial – na casa dos bilhões, caso convertida para a moeda local brasileira. No total, foram 18 meses de diálogo e planejamento até o contrato ser assinado.

Entretanto, o Conselho de Administração e os sócios entraram em consenso sobre o tema, especialmente considerando que a expectativa é de que o serviço de eVTOLs ganhe protagonismo e seja o core business – representando uma fatia maior da operação e do faturamento em detrimento dos helicópteros.

O momento da companhia é de expansão, com o faturamento de 2025 tendo um incremento próximo dos 200% ante o ano anterior, fruto de uma operação com três aeronaves dedicadas à operação de São Paulo, com quatro rotas fixas.

Atualmente a Revo opera somente na maior América Latina, mas não descarta expandir para outras cidades.

Novos ares para a Revo – ou novas rotas aéreas

Questionado sobre aumentar a capilaridade da empresa, Welsh revela que é algo que ‘está nos planos’, mas não necessariamente a ideia é expandir no sudeste brasileiro ou para outras regiões do território nacional.

A gestão entende que é mais vantajoso procurar ‘outras cidades iguais São Paulo’ em outros países, eventualmente na América Latina.

“Nós vemos um crescimento mês a mês do negócio, e, portanto, a vontade de crescer segue, e não só em São Paulo. Estamos avaliando a Revo ir para outras cidades. Isso não necessariamente está condicionado ao eVTOLs, mas vemos potencial em usá-los. É mais provável que seja fora do Brasil, com cidades semelhantes a São Paulo. Também temos planos de ir para outras cidades no Brasil, mas em um segundo momento.”

Como funciona um eVTOL, ou carro voador

O eVTOL desenvolvido pela Eve, uma companhia da Embraer, faz com que o Brasil esteja na vanguarda dessa tecnologia – dado que a empresa foi a que melhor tornou a aeronave um negócio escalável e lucrativo, fazendo a indústria sonhar de forma mais concreta com um táxi aéreo elétrico, moderno e com custos mais baixos.

O veículo é,, em suma, uma aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical projetada para serviços de mobilidade aérea urbana, com foco em rotas curtas dentro ou ao redor de centros urbanos.

O design do eVTOL combina duas funções de voo distintas:

  • Lift + cruise (sustentação + cruzeiro): o sistema tem rotores dedicados exclusivamente à subida e descida vertical e asas fixas para o voo horizontal. Isso significa que não há partes móveis que mudam de posição durante o voo, o que simplifica a operação e reduz a complexidade mecânica

A aeronave utiliza oito rotores para elevação vertical e um motor elétrico traseiro para propulsão no modo de cruzeiro. Essa distribuição de propulsão elétrica é conhecida como propulsão elétrica distribuída e aumenta a redundância e a segurança geral do sistema.

O eVTOL da Eve é totalmente elétrico, movido por baterias. Essa configuração elimina emissões de carbono no nível local e reduz o ruído em comparação com helicópteros tradicionais. A autonomia é projetada para cerca de 100 quilômetros por carga, e a velocidade média de cruzeiro deve ficar em torno de 200 km/h, permitindo trajetos rápidos dentro de regiões metropolitanas.

São empregados sistemas de controle baseados principalmente em fly-by-wire, tecnologia eletrônica que transmite os comandos do piloto aos atuadores sem ligação mecânica direta. Isso melhora a precisão dos controles e facilita a integração com sistemas automatizados de gestão de voo. Sensores e sistemas fornecem dados como velocidade, fluxo de ar e altitude, essenciais para a operação segura em diferentes condições meteorológicas.

Antes de entrar em serviço comercial, a aeronave passa por uma fase extensa de testes de voo e certificação junto a órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e autoridades internacionais. O protótipo já realizou voos de teste, validando sistemas essenciais e iniciando o ciclo de ensaios que antecede a operação comercial.

Além da aeronave, a Eve desenvolve soluções operacionais que incluem manutenção, treinamento e sistemas de gerenciamento de tráfego aéreo voltados à mobilidade urbana. Esses sistemas são necessários para integrar os eVTOLs de forma segura ao espaço aéreo, junto com drones, helicópteros e aviões convencionais.

Como está o mercado no resto do mundo

No cenário global, o mercado de eVTOLs ainda está em fase pré-operacional. Não há, até o momento, um serviço comercial regular desse tipo em funcionamento em larga escala. A Eve aparece entre as empresas mais avançadas nesse processo.

Segundo dados divulgados pela própria companhia, há cerca de 3 mil unidades encomendadas através de cartas de intenção por aproximadamente 30 clientes de 15 países diferentes.

Essas encomendas não são contratos formais de compra, mas indicam interesse comercial e ajudam a financiar o desenvolvimento do projeto.

Especialistas do setor apontam que o sucesso dos eVTOLs depende de fatores como regulação, aceitação do público, integração com o transporte terrestre e viabilidade econômica. No Brasil, a Anac já publicou normas específicas para esse tipo de aeronave, o que é visto como um passo importante para viabilizar a operação comercial.

Fonte: IstoÉ Dinheiro